• El papa Francisco en Egipto – Encuentro con las autoridades y representantes de las instituciones del país

Visita Pastoral a Milão: Encontro com os sacerdotes e os consagrados na Catedral (25 de março de 2017)

VISITA PASTORAL DO PAPA FRANCISCO A MILÃO

ENCONTRO COM OS SACERDOTES E OS CONSAGRADOS

PALAVRAS DO SANTO PADRE

Solenidade da Anunciação do Senhor
Catedral de Milão
Sábado, 25 de março de 2017

[Multimídia]

 

[Padre Gabriele Gioia, presbítero]

Muitas das energias e do tempo dos sacerdotes são absorvidos para continuar as formas tradicionais do ministério, mas sentimos os desafios da secularização e a irrelevância da fé dentro da evolução de uma sociedade milanesa, que é cada vez mais plural, multiétnica, multirreligiosa e multicultural. Por vezes acontece que também nós nos sentimos como Pedro e os apóstolos depois de ter trabalhado sem ter pescado. Perguntamos-lhe: quais purificações e quais escolhas prioritárias estamos chamados a realizar para não perder a alegria de evangelizar e de ser povo de Deus que testemunha o seu amor por cada homem? Santidade, estimamo-lo muito e rezamos por Vossa Santidade.

Papa Francisco:

Muito obrigado. Muito obrigado.

As três perguntas que fareis foram-me enviadas. Faz-se sempre assim. Normalmente, eu respondo improvisando, mas desta vez pensei, num dia com um programa tão denso, que era melhor escrever alguma coisa para responder.

Ouvi a tua pergunta, padre Gabriele. Já a tinha lido, mas quando tu falavas, vieram-me à mente duas coisas. Uma, «pescar». Tu sabes que a evangelização nem sempre é sinónimo de «pescar»: é ir, fazer-se ao largo, dar testemunho... e depois o Senhor, Ele, «pesca». Quando, como e onde, não o sabemos. E isto é muito importante. E também partir daquela realidade, que nós somos instrumentos inúteis. Outra coisa que disseste, aquela preocupação que expressaste que é a preocupação de todos vós: não perder a alegria de evangelizar. Porque evangelizar é uma alegria. O grande Paulo VI, na Evangelii nuntiandi — que é o maior documento pastoral do pós-Concílio, ainda hoje atual — falava desta alegria: a alegria da Igreja é evangelizar. E nós devemos pedir a graça de não a perder. Ele [Paulo VI] diz-nos, quase no final [daquele documento]: Conservemos esta alegria de evangelizar; não como evangelizadores tristes, entediados, assim não; um evangelizador triste é alguém que não está convencido de que Jesus é alegria, que te traz a alegria, e quando te chama muda a tua vida e dá-te alegria, envia-te na alegria, até na cruz, mas na alegria, para evangelizar. Obrigado por teres frisado estas coisas que disseste, Gabriele.

E agora, aquilo que pensei acerca desta pergunta, em casa, para dizer aspetos mais refletidos.

Um dos primeiros aspetos que me vem à mente é a palavra desafio — que tu usaste: «muitos desafios», disseste. Cada época histórica, desde os primórdios do cristianismo, foi continuamente submetida a múltiplos desafios. Desafios dentro da comunidade eclesial e ao mesmo tempo na relação com a sociedade na qual a fé ia ganhando corpo. Recordemos o episódio de Pedro na casa de Cornélio em Cesareia (cf. At 10, 24-35), ou a controvérsia em Antioquia e depois em Jerusalém sobre a necessidade ou não de circuncidar os pagãos (cf. At 15, 1-6), e assim por diante. Por isso não devemos temer os desafios, que isto seja claro. Não devemos temer os desafios. Quantas vezes se ouvem lamentações: «Ah, neste tempo, há tantos desafios, e estamos tristes...». Não. Não tenhais medo. Os desafios devem ser enfrentados como o boi, pelos cornos. Não temer os desafios. E é bom que haja desafios. É bom, porque nos fazem crescer. São sinal de uma fé viva, de uma comunidade viva que procura o seu Senhor e mantém os olhos e o coração abertos. Ao contrário, devemos temer uma fé sem desafios, uma fé que se considera completa, toda completa: não preciso de outras coisas, está tudo feito. Esta fé está tão diluída que não serve. É isto que devemos temer. E considera-se completa como se tudo tivesse sido dito e feito. Os desafios ajudam-nos a fazer com que a nossa fé não se torne ideológica. Há os perigos das ideologias, sempre. As ideologias crescem, germinam e aumentam quando alguém pensa que tem a fé completa, e torna-se ideologia. Os desafios salvam-nos de um pensamento fechado e definido e abrem-nos a uma compreensão mais ampla que o dado revelado. Como afirmou a Constituição dogmática Dei Verbum: «A Igreja, no decurso dos séculos, tende continuamente para a plenitude da verdade divina, até que nela se realizem as palavras de Deus» (n. 8). E nisto os desafios ajudam-nos a abrir-nos ao mistério revelado. Esta é uma primeira coisa, que tomo do que tu disseste.

Segundo aspeto. Tu falaste de uma sociedade «multi»: multicultural, multirreligiosa, multiétnica. Penso que a Igreja, no espaço de toda a sua história, muitas vezes — sem nos darmos conta — tem muito para nos ensinar e ajudar para uma cultura da diversidade. Devemos aprender. O Espírito Santo é o Mestre da diversidade. Olhemos para as nossas dioceses, para os nossos presbíteros, para as nossas comunidades. Olhemos para as Congregações religiosas. Tantos carismas, tantos modos de realizar a experiência crente. A Igreja é una numa experiência multiforme. É una, sim. Mas numa experiência multiforme. Esta é a riqueza da Igreja. Mesmo sendo una é multiforme. O Evangelho é uno na sua forma quádrupla. O Evangelho é uno, mas são quatro e são diversos, mas aquela diversidade é uma riqueza. O Evangelho é uno de forma quádrupla. Isto confere às nossas comunidades uma riqueza que manifesta a ação do Espírito. A Tradição eclesial tem uma grande experiência de como «gerir» o múltiplo no âmbito da sua história e da sua vida. Vimos e vemos de tudo: vimos e vemos muitas riquezas e muitos horrores e erros. E aqui temos uma boa chave que nos ajuda a ler o mundo contemporâneo. Sem o condenar nem santificar. Reconhecendo os aspetos luminosos e obscuros. Assim como ajudando-nos a discernir os excessos de uniformidade ou de relativismo: duas tendências que procuram cancelar a unidade das diferenças, a interdependência. A Igreja é una nas diferenças. É una, e aquelas diferenças unem-nos naquela unidade. Mas quem faz as diferenças? O Espírito Santo: é o Mestre das diferenças! E quem faz a unidade? O Espírito Santo: Ele é também o Mestre da unidade! Aquele grande Artista, aquele grande Mestre da unidade nas diferenças é o Espírito Santo. E devemos compreender bem isto. Depois voltarei mais adiante sobre isto, a propósito do discernimento: discernir quando é o Espírito que faz as diferenças e a unidade, e quando não é o Espírito quem faz uma diferença e uma divisão. Quantas vezes confundimos unidade com uniformidade? E não é o mesmo. Ou quantas vezes confundimos pluralidade com pluralismo? E não é o mesmo. A uniformidade e o pluralismo não pertencem ao espírito bom: não provêm do Espírito Santo. Ao contrário, a pluralidade e a unidade provêm do Espírito Santo. Em ambos os casos aquilo que se procura fazer é reduzir a tensão e eliminar o conflito ou a ambivalência a que estamos submetidos como seres humanos. Procurar eliminar um dos polos da tensão é eliminar o modo como Deus se quis revelar na humanidade do seu Filho. Tudo o que não assume o drama humano pode ser uma teoria muito clara e distinta mas não é coerente com a Revelação e por isso é ideológica. A fé, para ser cristã e não ilusória, deve configurar-se no âmbito dos processos: dos processos humanos sem se reduzir a eles. Também esta é uma bela tensão. É uma tarefa bela e exigente que Nosso Senhor nos deixou, o «já e ainda não» da Salvação. E isto é muito importante: unidade nas diferenças. Esta é uma tensão, mas é uma tensão que nos faz crescer sempre na Igreja.

Um terceiro aspeto. Há uma escolha que como pastores não podemos eludir: formar para o discernimento. Discernimento nestas coisas que parecem opostas ou que são contrárias para saber quando uma tensão, uma oposição vem do Espírito Santo e quando vem do Maligno. E por isso, formar para o discernimento. Como me parece ter compreendido da pergunta, a diversidade oferece um cenário muito insidioso. A cultura da abundância à qual estamos submetidos oferece um horizonte com tantas possibilidades, apresentando todas como válidas e boas. Os nossos jovens estão expostos a um zapping contínuo. Podem navegar em dois ou três écrans abertos contemporaneamente, podem interagir ao mesmo tempo em diversos cenários virtuais. Quer nos agrade quer não, é o mundo no qual estão inseridos e é nosso dever como pastores ajudá-los a atravessar este mundo. Por isso considero que é bom ensinar-lhes a discernir, para que tenham os instrumentos e os elementos que os ajudem a percorrer o caminho da vida sem extinguir o Espírito Santo que está neles. Num mundo sem possibilidades de escolha, ou com menos possibilidades, talvez as coisas pareçam mais claras, não sei. Mas hoje os nossos fiéis — e nós próprios — estamos expostos a esta realidade, e por isso estou convencido de que como comunidade eclesial devemos incrementar o habitus do discernimento. Este é um desafio, e requer a graça do discernimento, para procurar aprender a ter o hábito do discernimento. Esta graça, dos pequenos e adultos, todos. Quando somos crianças é fácil que o pai ou a mãe nos digam o que devemos fazer, e está bem — hoje penso que não é fácil; no meu tempo sim, mas hoje não, contudo é mais fácil. Mas à medida que crescemos, no meio de uma multidão de vozes onde aparentemente todas têm razão, o discernimento do que nos conduz à Ressurreição, à Vida e não a uma cultura de morte, é crucial. Por isso friso muito esta necessidade. É um instrumento catequético, e também para a vida. Na catequese, na guia espiritual, nas homilias, devemos ensinar ao nosso povo, ensinar aos jovens, ensinar às crianças, ensinar aos adultos o discernimento. E ensinar-lhes a pedir a graça do discernimento.

Sobre isto indico-vos aquela parte da Exortação Evangelii gaudium intitulada «A missão que se encarna nas limitações humanas»: números 40-45. E este é o terceiro ponto com o qual te respondi. São pequenas coisas que talvez ajudem na vossa reflexão sobre as perguntas e depois no diálogo entre vós. Agradeço-te muito.

[Roberto Crespi, diácono permanente]

Santidade, bom dia. Chamo-me Roberto, diácono permanente. O diaconado entrou no nosso clero em 1990 e atualmente somos 143, não é um número grande mas é significativo. Somos homens que vivem plenamente a própria vocação, matrimonial ou celibatária, mas vivem também plenamente no mundo do trabalho e da profissão e por isso levam ao clero, ao mundo da família e ao mundo do trabalho, levam todas aquelas dimensões da beleza e da experiência mas também da canseira e algumas vezes inclusive feridas. Então perguntamos-lhe: como diáconos permanentes qual é a nossa parte para que possamos ajudar a delinear aquele rosto de Igreja que é humilde, que é abnegado, bem-aventurado, aquele que ouvimos que está no seu coração e do qual se fala com frequência? Agradeço-lhe a atenção e garanto-lhe as nossas preces e juntamente com as nossas as das nossas esposas e famílias.

Papa Francisco:

Obrigado. Vós, diáconos tendes muito para dar, muito. Pensemos no valor do discernimento. No contexto do presbitério, vós podeis ser uma voz importante para mostrar a tensão que existe entre o dever e o querer, as tensões que se vivem no âmbito da vida familiar — vós tendes uma sogra, para dar um exemplo! — Assim como as bênçãos que se vivem numa vida familiar.

Mas devemos estar atentos a não ver os diáconos como meio sacerdotes e meio leigos. Isto é um perigo. No final não estão nem cá nem lá. Não, isto não se deve fazer, é um perigo. Considerá-los assim faz mal a nós e a eles. Este modo de os considerar tira força ao carisma próprio do diaconado. Quero voltar a falar sobre este tema: o carisma próprio do diaconado. E este carisma está na vida da Igreja. Também não está bem a imagem do diácono como uma espécie de intermediário entre fiéis e pastores. Nem a meio caminho entre os sacerdotes e os leigos, nem sequer a meio caminho entre pastores e fiéis. E há duas tentações. Há o perigo do clericalismo: o diácono que é demasiado clerical. Não, não, assim não está bem. Algumas vezes vejo algum que assiste à liturgia: parece quase que pretende ocupar o lugar do sacerdote. O clericalismo, precavei-vos do clericalismo. E a outra tentação, o funcionalismo: é uma ajuda de que o sacerdote dispõe para isto ou para aquilo...; é um jovem que desempenha determinadas tarefas e não outras... Não. Vós tendes um carisma claro na Igreja e deveis construí-lo.

O diaconado é uma vocação específica, uma vocação familiar que chama ao serviço. Agrada-me tanto quando [nos Atos dos Apóstolos] os primeiros cristãos helenistas foram ter com os apóstolos para se lamentarem porque as suas viúvas e órfãos não eram bem assistidos, e fizeram aquela reunião, aquele «sínodo» entre os apóstolos e os discípulos, e «inventaram» os diáconos para servir. E isto é muito interessante também para nós bispos, porque eles eram todos bispos, os que «instituíram» o diaconado. E que nos diz? Que os diáconos sejam servos. Depois compreenderam que, naquele caso, era para assistir as viúvas e os órfãos; mas servir. E a nós bispos: a oração e o anúncio da Palavra; e isto mostra-nos qual é o carisma mais importante de um bispo: rezar. Qual é a tarefa de um bispo, a primeira tarefa? A oração. Segunda tarefa: anunciar a Palavra. Mas vê-se bem a diferença. E a vós [diáconos]: o serviço. Esta palavra é a chave para compreender o vosso carisma. O serviço como um dos dons característicos do povo de Deus. O diácono é — por assim dizer — o guarda do serviço na Igreja. Cada palavra deve ser bem ponderada. Vós sois os guardas do serviço na Igreja: o serviço à Palavra, o serviço no Altar, o serviço aos Pobres. E a vossa missão, a missão do diácono, e o seu contributo consistem nisto: em recordar a todos nós que a fé, nas suas diversas expressões — a liturgia comunitária, a oração pessoal, as diversas formas de caridade — e nos seus vários estados de vida — laical, clerical, familiar — possui uma dimensão essencial de serviço. O serviço a Deus e aos irmãos. E quanto caminho há a percorrer neste sentido! Vós sois os guardas do serviço na Igreja.

Consiste nisto o valor dos carismas na Igreja, que são uma recordação e um dom para ajudar todo o povo de Deus a não perder a perspetiva e as riquezas do agir de Deus. Vós não sois meio sacerdotes e meio leigos — isto seria «funcionalizar» o diaconado — sois sacramento do serviço a Deus e aos irmãos. E desta palavra «serviço» deriva todo o desenvolvimento do vosso trabalho, da vossa vocação, do vosso ser na Igreja. Uma vocação que como todas as vocações não é apenas individual, mas vivida no âmbito da família e com a família; no âmbito do Povo de Deus e com o Povo de Deus.

Em síntese:

— não há serviço no altar, não há liturgia que não se abra ao serviço dos pobres, e não há serviço dos pobres que não conduza à liturgia;

— não há vocação eclesial que não seja familiar.

Isto ajuda-nos a reavaliar o diaconado como vocação eclesial.

Por fim, hoje parece que tudo nos deve «servir», como se tudo fosse finalizado ao indivíduo: a oração «serve-me», a comunidade «serve-me», a caridade «serve-me». Este é um dado da nossa cultura. Vós sois o dom que o Espírito nos dá para ver que o caminho justo vai ao contrário: na oração sirvo, na comunidade sirvo, com a solidariedade sirvo Deus e o próximo. E que Deus vos conceda a graça de crescer neste carisma de guardar o serviço na Igreja. Obrigado pelo que fazeis.

[Madre M. Paola Paganoni]

Santidade, sou a Madre Paola das Ursulinas e estou aqui em nome de toda a vida consagrada presente na Igreja milanesa mas também de toda a Lombardia. Agradecemos-lhe a sua presença, mas sobretudo o testemunho de vida que nos oferece. Desde Santa Marcelina, irmã de Ambrósio, a vida consagrada na Igreja milanesa até hoje foi presença viva, significativa, com formas antigas — e viu-as aqui — e com formas novas. Queremos perguntar-lhe, Padre, como ser hoje, para o homem de hoje, testemunha de profecia, como Vossa Santidade diz: guardas da maravilha, mas testemunhar com a nossa pobre vida uma vida que seja obediente, virgem, pobre e fraterna? E depois, considerando as nossas poucas — parecemos muitas, mas a idade é avançada — as nossas poucas forças, para o futuro, quais periferias existenciais, quais âmbitos escolher, privilegiar, com a consciência reavivada da nossa menoridade — menoridade na sociedade e menoridade também na Igreja? Garantimos-lhe a nossa recordação diária.

Papa Francisco:

Obrigado. Agrada-me, gosto da palavra «menoridade». É verdade que é o carisma dos franciscanos, mas também todos nós devemos ser «menores»: é uma atitude espiritual, a menoridade, que é como o selo do cristão. Apraz-me que tenha usado esta palavra. E começarei por esta última palavra: menoridade, a minoria. Normalmente — mas não digo que seja o seu caso — é uma palavra que se acompanha com um sentimento: «parecemos muitas, mas a maior parte é idosa, somos poucas...». E o sentimento que está por detrás qual é? A resignação. Mau sentimento. Sem nos apercebermos, todas as vezes que pensamos ou constatamos que somos poucos, ou em muitos casos idosos, que experimentam o peso, mais a fragilidade do que o esplendor, o nosso espírito começa a ser corroído pela resignação. E a resignação conduz depois à acídia... Recomendo-vos, se tiverdes tempo, a leitura do que dizem os Padres do deserto sobre a acídia: é muito atual, hoje. Penso que nasce aqui a primeira ação à qual devemos prestar atenção: poucos sim, em minoria sim, resignados não! São fios muitos finos que se só reconhecem diante do Senhor examinando a nossa interioridade. O cardeal, quando falou, disse duas palavras que me fizeram admirar muito. Falando da misericórdia disse que a misericórdia «restaura e dá paz». Um bom remédio contra a resignação é esta misericórdia que restaura e dá paz. Quando caímos na resignação, afastamo-nos da misericórdia, vamos imediatamente ter com alguém, ter com o Senhor para pedir misericórdia, para que nos restaure e dê paz.

Quando a resignação nos invade, vivemos com o imaginário de um passado glorioso que, longe de despertar o carisma inicial, nos envolve cada vez mais numa espiral de opressão existencial. Tudo se torna mais pesado e difícil de carregar. E aqui, esta é uma coisa que não tinha escrito mas vou dizê-la, porque é um pouco feio dizê-la, mas desculpai-me, acontece, e vou dizê-la. Começam a ser pesadas as estruturas, vazias, não sabemos como fazer e pensamos em vender as estruturas para obter dinheiro, o dinheiro para a velhice... Começa a ser pesado o dinheiro que temos no banco... E a pobreza, para onde vai? Mas o Senhor é bom, e quando uma congregação religiosa não caminha pela vereda do voto de pobreza, normalmente envia-lhe um mau administrador ou administradora que manda tudo em ruína! E isto é uma graça! [ri, aplausos]. Dizia que tudo se torna pesado e difícil de carregar. E a tentação é procurar sempre as seguranças humanas. Falei de dinheiro, que é uma das seguranças mais humanas que temos à mão. Por isso, faz bem a todos nós revisitar as origens, fazer uma peregrinação às origens, uma memória que nos salva de qualquer imaginação gloriosa mas irreal do passado.

«O olhar de fé é capaz de reconhecer — diz a Evangelii gaudium — a luz que o Espírito Santo difunde sempre no meio da obscuridade, sem esquecer que “onde abundou o pecado, superabundou a graça” (Rm 5, 20). A nossa fé é desafiada a divisar o vinho no qual a água pode ser transformada, e a descobrir o grão que cresce no meio do joio» (n. 84).

Os nossos padres e madres fundadores nunca pensaram em ser uma multidão, ou uma grande maioria. Os nossos fundadores sentiram-se movidos pelo Espírito Santo num momento concreto da história a ser presença jubilosa do Evangelho para os irmãos; a renovar e a edificar a Igreja como fermento na massa, como sal e luz do mundo. Estou a pensar, vem-me claramente a frase de um fundador, mas muitos disseram o mesmo: «Tende medo da multidão». Que não venham muitos, pelo receio de não os formar bem, o medo de não lhes dar o carisma... Alguém chamava a isto «turba multa». Não. Eles pensavam simplesmente em levar por diante o Evangelho, o carisma.

Penso que um dos motivos que nos travam e nos privam da alegria consiste neste aspeto. As nossas congregações não nasceram para ser a massa, mas um pouco de sal e um pouco de fermento, que teria dado o próprio contributo para que a massa crescesse; para que o Povo de Deus tivesse aquele «tempero» que lhe faltava. Durante muitos anos tivemos a tentação de crer, e muitos cresceram com a ideia de que as famílias religiosas tivessem que ocupar espaços em vez de iniciar processos, e esta é uma tentação. Nós devemos iniciar processos em vez de ocupar espaços. Eu tenho medo das estatísticas, porque nos enganam, muitas vezes. Por um lado dizem-nos a verdade, mas depois chega a ilusão e levam-nos ao engano. Ocupar espaços mais do que iniciar processos: éramos tentados por isto porque pensávamos que dado que éramos muitos, o conflito pudesse prevalecer sobre a unidade; que as ideias (ou a nossa impossibilidade de mudar) fossem mais importantes do que a realidade; ou que a parte (a nossa pequena parte ou visão do mundo) fosse superior ao todo eclesial (cf. ibid., 222-237). É uma tentação. Mas eu nunca vi um pizzaiolo que para fazer a pizza usa meio quilo de fermento e 100 gramas de farinha, não. É o contrário. O fermento, pouco, para fazer crescer a farinha.

Hoje a realidade interpela-nos, hoje a realidade convida-nos a ser de novo um pouco de fermento, um pouco de sal. Ontem à tarde, em L’Osservatore Romano, que sai à tarde mas com a data de hoje, há a despedida das últimas duas Pequenas Irmãs de Jesus do Afeganistão, entre os muçulmanos, porque não havia mais [irmãs] e agora, idosas, tinham que voltar. Falavam afegão. Amadas por todos: muçulmanos, católicos, cristãos... Porquê? Porque eram testemunhas. Porquê? Porque eram consagradas a Deus Pai de todos. E eu pensei, disse ao Senhor, enquanto lia isto — procurai isto, hoje, em L’Osservatore Romano, que nos fará refletir acerca daquilo sobre o que a madre fez a pergunta: «Mas Jesus, porque deixas aquela gente assim?». E veio-me à mente o povo coreano, que no início teve três, quatro missionários chineses — no início — e depois durante dois séculos a mensagem foi levada por diante só por leigos. As vias do Senhor são como Ele quer que sejam. Mas seria positivo para nós fazer uma ação de confiança: é Ele que conduz a história! É verdade. Nós fazemos de tudo para crescer, para ser fortes... Mas resignar-nos não. Iniciar processos. Hoje a realidade interpela — repito — a realidade convida-nos a ser de novo um pouco de fermento, um pouco de sal. Podeis imaginar uma refeição com muito sal? Ninguém a comeria. Hoje, a realidade — por muitos fatores que não podemos analisar agora — chama-nos mais a iniciar processos do que a ocupar espaços, mais a lutar pela unidade do que a apegar-nos a conflitos do passado, a ouvir a realidade, a abrir-nos à «massa», ao Povo santo de Deus, ao todo eclesial. Abrir-nos ao todo eclesial.

Uma minoria abençoada, que está convidada novamente a fermentar, a fermentar em sintonia com quanto o Espírito Santo inspirou no coração dos vossos fundadores e no coração de vós mesmas. Eis o que é necessário hoje.

Passo ao último aspeto. Não ousaria dizer-vos a quais periferias existenciais se deve dirigir a missão, porque normalmente o Espírito inspirou os carismas para as periferias, para ir aos lugares, aos recantos normalmente abandonados. Não penso que o Papa vos possa dizer: ocupai-vos desta ou daquela. O que o Papa vos pode dizer é isto: sois poucas, sois poucos, sois aquelas que sois, ide às periferias, ide aos confins encontrar-vos com o Senhor, renovar a missão das origens, à Galileia do primeiro encontro, voltar à Galileia do primeiro encontro! E isto fará bem a todos nós, far-nos-á uma multidão. Vem à minha mente agora a confusão que sentiu o nosso Pai Abraão: fizeram-no olhar para o céu: «Conta as estrelas!» — mas não podia — «assim será a tua descendência». E depois: «O teu único filho» — o único, o outro já se tinha ido embora, mas este tinha a promessa — «leva-o contigo ao monte para mo ofereceres em sacrifício». Daquela imensidão de estrelas ao sacrifício do próprio filho: a lógica de Deus não se compreende. Unicamente se obedece. E este é o caminho pelo qual enveredar. Escolher as periferias, despertar processos, acender a esperança esmorecida e debilitada por uma sociedade que se tornou insensível ao sofrimento dos outros. Na nossa fragilidade como congregações podemos tornar-nos mais atentos a tantas fragilidades que nos circundam e transformá-las em espaço de bênção. Haverá o momento em que o Senhor vos dirá: «Para, há um cabrito, ali. Não sacrifiques o teu único filho». Ide levar a «unção» de Cristo, ide. Não vos estou a mandar embora! Digo apenas: ide levar a missão de Cristo, o vosso carisma.

E não esqueçamos que «quando se põe Jesus no meio do seu povo, o povo encontra a alegria. Sim, só isto poderá restituir-nos a alegria e a esperança, só isto nos salvará de viver numa atitude de sobrevivência. Por favor não, isto é resignação. Não sobreviver, viver! Só isto tornará fecunda a nossa vida e manterá vivo o nosso coração. Colocar Jesus onde Ele deve estar: no meio do seu povo» (Homilia na Santa Missa da Apresentação do Senhor, XXI Dia Mundial da Vida Consagrada, 2 de fevereiro de 2017). Eis a vossa tarefa. Obrigado, madre. Obrigado.

E agora rezemos juntos. Conceder-vos-ei a bênção e peço-vos, por favor, que rezeis por mim porque preciso de ser amparado pelas orações do povo de Deus, dos consagrados e dos sacerdotes. Muito obrigado.

Oremos.