Vigília de Pentecostes por ocasião do Jubileu de Ouro da Renovação Carismática Católica (Circo Máximo, 3 de junho de 2017)

VIGÍLIA DE PENTECOSTES
POR OCASIÃO DO JUBILEU DE OURO DA RENOVAÇÃO CARISMÁTICA CATÓLICA

PALAVRAS DO PAPA FRANCISCO

Circo Máximo
Sábado, 3 de junho de 2017

[Multimídia]

 

Irmãos e irmãs, obrigado pelo testemunho que dais hoje, aqui: obrigado! Faz-nos bem a todos, faz bem também a mim, a todos!

No primeiro capítulo do livro dos Atos dos Apóstolos lemos: «E comendo com eles, ordenou-lhes que não se afastassem de Jerusalém, mas que esperassem o cumprimento da promessa de seu Pai, que ouvistes — disse ele — da minha boca: João batizou na água, mas vós sereis batizados no Espírito Santo daqui a poucos dias» (1, 4-5).

«E chegando o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar. De repente, veio do céu um ruído, como se soprasse um vento impetuoso, e encheu toda a casa onde estavam sentados. Apareceu-lhes então uma espécie de línguas de fogo que se repartiram e pousaram sobre cada um deles. Ficaram todos cheios do Espírito Santo e começaram a falar em línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem» (At 2, 1-4).

Hoje estamos aqui como num Cenáculo ao ar livre, e também com o coração aberto à promessa do Pai. Estamos reunidos «todos nós crentes», todos aqueles que professam que «Jesus é o Senhor», «Jesus is the Lord». Muitos vieram de diversas partes do mundo e o Espírito Santo reuniu-nos para estabelecer vínculos de amizade fraterna que nos encorajem no caminho rumo à unidade, a unidade para a missão: não para estar parados, não, para a missão, para proclamar que Jesus é o Senhor — «Jesús es el Señor» — para anunciar juntos o amor do Pai por todos os seus filhos! Para anunciar a Boa Nova a todos os povos! Para demonstrar que a paz é possível. Não é muito fácil demonstrar ao mundo de hoje que a paz é possível, mas em nome de Jesus podemos demonstrar com o nosso testemunho que a paz é possível! Mas é possível se estivermos em paz entre nós. Se acentuarmos as diferenças, estaremos em guerra entre nós e não poderemos anunciar a paz. A paz é possível a partir da nossa confissão que Jesus é o Senhor e da nossa evangelização nesta estrada. É possível. Mesmo mostrando que temos diferenças — mas isto é óbvio, temos diferenças — mas que desejamos ser uma diversidade reconciliada. Então, não devemos esquecer esta palavra mas dizê-la todos: diversidade reconciliada. E esta palavra não é minha, não é minha. É de um irmão luterano. Diversidade reconciliada.

E agora estamos aqui e somos numerosos! Reunimo-nos para rezar juntos, para pedir a vinda do Espírito Santo sobre cada um de nós a fim de que possamos sair pelas ruas da cidade e do mundo para proclamar o senhorio de Jesus Cristo.

O livro dos Atos afirma: «Partos, Medos, Elamitas; os que habitam a Macedónia, a Judeia, a Capadócia, o Ponto, a Ásia, a Frígia, a Panfília, o Egito e as províncias da Líbia próximas a Cirene; peregrinos romanos, judeus ou prosélitos, cretenses e árabes; ouvimo-los publicar em nossas línguas as maravilhas de Deus» (2, 9-11). Falar a mesma língua, ouvir, compreender... Há diferenças, mas o Espírito faz-nos entender a mensagem da ressurreição de Jesus na nossa própria língua.

Estamos aqui reunidos crentes provenientes de 120 países do mundo, para celebrar a obra soberana do Espírito Santo na Igreja, que teve início há 50 anos e deu vida a... uma instituição? A uma organização? Não. A uma corrente de graça, uma corrente de graça da Renovação Carismática Católica. Obra que nasceu... católica? Não. Nasceu ecuménica! Nasceu ecuménica porque é o Espírito Santo quem cria a unidade e é o mesmo Espírito Santo que deu a inspiração para que fosse assim! É importante ler as obras do cardeal Suenens sobre isto: é muito importante!

A vinda do Espírito Santo transforma homens fechados por causa do medo em testemunhas corajosas de Jesus. Pedro, que renegara Jesus por três vezes, repleto da força do Espírito Santo proclama: «Que toda a casa de Israel saiba, portanto, com a maior certeza que este Jesus, que vós crucificastes, Deus o constituiu Senhor e Cristo» (At 2, 36). Esta é a profissão de fé de cada cristão! Deus constituiu Senhor e Cristo aquele Jesus que vós crucificastes ou que foi crucificado. Estais de acordo com esta profissão de fé? [respondem: Sim!] É a nossa, de todos, todos, a mesma!

A Palavra prossegue dizendo: «Todos os fiéis viviam unidos e tinham tudo em comum. Vendiam as suas propriedades e os seus bens, e dividiam-nos por todos, segundo a necessidade de cada um. Vendiam: ajudavam os pobres. Havia alguns espertos — pensemos em Ananias e Safira, há sempre — mas todos crentes, a maioria, ajudavam-se uns aos outros. Unidos de coração frequentavam todos os dias o templo. Partiam o pão nas casas e tomavam a comida com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus e cativando a simpatia de todo o povo. E o Senhor cada dia lhes ajuntava outros que estavam a caminho da salvação» (2, 44-47). A comunidade crescia, e havia o Espírito que inspirava. Eu gosto muito de pensar em Filipe, quando o anjo lhe diz: «Vai em direção do caminho que desce a Gaza» e procura aquele prosélito, ministro da economia da rainha da Etiópia, Candace. Era um prosélito e lia Isaías. E Filipe explicou-lhe a Palavra, proclamou Jesus, e aquele converteu-se. Num dado momento, disse: “Mas aqui há água: quero ser batizado”. Foi o Espírito que impeliu Filipe a ir ali, e foi desde o início o Espírito quem impeliu todos os crentes a proclamar o Senhor.

Hoje escolhemos reunir-nos aqui, neste lugar — disse o pastor Traettino — porque aqui, durante as perseguições foram martirizados alguns cristãos, para o deleite daqueles que assistiam. Hoje há mais mártires do que ontem! Hoje há mais mártires, cristãos. Aqueles que matam os cristãos, antes de os assassinar não lhes perguntam: «És ortodoxo? És católico? És evangélico? És luterano? És calvinista?». Não. «És cristão?» — «Sim»: degolam imediatamente. Hoje há mais mártires do que nos primeiros tempos. E este é o ecumenismo do sangue: une-nos o testemunho dos nossos mártires de hoje. O sangue cristão é derramado em diversos lugares do mundo! Hoje é mais urgente do que nunca a unidade dos cristãos, unidos por obra do Espírito Santo, na oração e na ação em prol dos mais débeis. Caminhar juntos, trabalhar juntos. Amar-nos. Amar-nos. E juntamente procurar explicar as diferenças, chegar a um acordo, mas a caminho! Se permanecermos parados, sem caminhar, nunca, nunca concordaremos. É assim, porque o Espírito nos quer a caminho.

Cinquenta anos de Renovação Carismática Católica. Uma corrente de graça do Espírito! E por que corrente de graça? Porque não há fundadores, nem estatutos, nem órgãos de governo. Claramente nesta corrente surgiram várias expressões que, sem dúvida, são obras humanas inspiradas pelo Espírito, com vários carismas, e todas ao serviço da Igreja. Mas não se podem colocar barragens à corrente, nem se pode fechar o Espírito Santo numa gaiola!

Passaram cinquenta anos. Quando se chega a essa idade as forças começam a diminuir. É a metade da vida — na minha terra dizemos “el cinquentazo” — as rugas tornam-se mais profundas — a não ser que nos maquilhemos, mas há rugas — os cabelos grisalhos aumentam e começamos também a esquecer-nos de algumas coisas...

Cinquenta anos é um momento da vida oportuno para parar e fazer uma reflexão. É o momento da reflexão: metade da vida. Eu diria: é o momento para ir em frente com mais força, deixando para trás a poeira do tempo que permitimos que se acumulasse, agradecendo aquilo que recebemos e enfrentando o novo com confiança na ação do Espírito Santo!

O Pentecostes faz nascer a Igreja. O Espírito Santo, a promessa do Pai anunciada por Jesus Cristo, é Aquele que faz a Igreja: a esposa do Apocalipse, uma única esposa! Afirmou o pastor Traettino: o Senhor tem uma esposa!

O dom mais precioso que todos recebemos é o Batismo. E agora o Espírito conduz-nos pelo caminho de conversão que atravessa todo o mundo cristão e é mais um motivo para que a Renovação Carismática Católica seja um lugar privilegiado a fim de percorrer a estrada rumo a unidade!

Esta corrente de graça é para toda a Igreja, não só para alguns, e ninguém de nós é o “senhor” e todos os outros são servos. Não. Todos somos servos desta corrente de graça.

Juntamente com esta experiência, lembrais constantemente à Igreja o poder da oração de louvor. Louvor que é a oração de gratidão e de ação de graças pelo amor gratuito de Deus. Pode acontecer que alguém não goste deste modo de rezar, mas não há dúvida que se insere plenamente na tradição bíblica. Por exemplo, os Salmos: David dançava diante da Arca da Aliança, cheio de júbilo... E por favor, não caiamos na atitude dos cristãos com o “complexo de Micol”, que se envergonhava pelo modo como David louvava a Deus [dançando em frente da Arca].

Júbilo, alegria, felicidade fruto da mesma ação do Espírito Santo! O cristão ou experimenta a alegria no seu coração ou significa que algo não funciona. A alegria do anúncio da Boa Nova do Evangelho!

Jesus na Sinagoga de Nazaré lê o trecho de Isaías. Leio: «O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu; e enviou-me para anunciar a boa nova aos pobres, para sarar os contritos de coração, para anunciar aos cativos a redenção, aos cegos a restauração da vista, para pôr em liberdade os cativos, para publicar o ano da graça do Senhor» (Lc 4, 18-19; cf. 61, 1-2). A boa nova: não esqueçamos isto. O jubiloso anúncio: o anúncio cristão é sempre jubiloso.

O terceiro documento de Malines, «Renovação Carismática e Serviço ao Homem», escrito pelo cardeal Suenens e pelo bispo Hélder Câmara, é claro: renovação carismática e também serviço ao homem.

Batismo no Espírito Santo, louvor, serviço ao homem. As três coisas estão ligadas de forma indissolúvel. Posso dar louvor profundamente, mas se eu não ajudar os mais necessitados, não é suficiente. «Não havia entre eles necessitado algum» (At 4, 34), estava escrito no Livro dos Atos.

Não seremos julgados pelo nosso louvor, mas por quanto fizemos por Jesus. «Mas Senhor, quando foi que fizemos isto por ti? Todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes» (cf. Mt 25, 39-40).

Queridas irmãs e caros irmãos, desejo-vos um tempo de reflexão, de memória das origens; um tempo para que deixeis para trás todas as coisas acrescentadas pelo próprio ego, transformando-as em escuta e acolhimento jubiloso da ação do Espírito Santo, que sopra onde e como quer!

Agradeço à Fraternidade Católica e a ICCRS por ter organizado este Jubileu de Ouro, e estas Vésperas. E agradeço a cada um dos voluntários que a tornaram possível, muitos dos quais se encontram aqui. Quis saudar os membros da equipa do gabinete quando cheguei, porque sei que trabalharam muito! E sem ser pagos! Trabalharam muito. A maioria são jovens de diversos continentes! Que o Senhor os abençoe abundantemente!

Agradeço especialmente o facto de que o pedido, que vos fiz há dois anos, de dar à Renovação Carismática mundial um único serviço internacional com base aqui, tenha começado a concretizar-se nos Atos Constitutivos deste novo serviço único. É o primeiro passo, outros se seguirão, contudo em breve a unidade, obra do Espírito Santo, será uma realidade. «Eis que eu renovo todas as coisas», diz o Senhor (Ap 21, 5).

Obrigado, Renovação Carismática Católica, por aquilo que destes à Igreja nestes cinquenta anos! A Igreja conta convosco, com a vossa fidelidade à Palavra, com a vossa disponibilidade ao serviço e o testemunho de vidas transformadas pelo Espírito Santo!

Compartilhar com todos na Igreja o Batismo no Espírito Santo, louvar o Senhor sem cessar, caminhar juntamente com os cristãos de diversas Igrejas e comunidades cristãs na oração e na ação para com os mais necessitados. Servir os mais pobres e os enfermos, eis o que a Igreja e o Papa esperam de vós, Renovação Carismática Católica, mas de vós todos: todos, todos vós que entrastes nesta corrente de graça! Obrigado.