Vigilantes contra a mundanidade (13 de outubro de 2017)

PAPA FRANCISCO

MEDITAÇÕES MATUTINAS NA SANTA MISSA CELEBRADA
NA CAPELA DA CASA SANTA MARTA

Vigilantes contra a mundanidade

Sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 43 de 26 de outubro de 2017

O Papa Francisco advertiu contra os «demónios educados», que bem disfarçados propõem astutamente tentações e seduções com as boas maneiras, acabando por fazer «pressões de salão», às quais sugeriu que se responda com «a vigilância», que significa «oração, exame de consciência e obras de caridade», para não cair na «mundanidade» nem merecer também o apelativo de «estulto» que São Paulo diz aos Gálatas. Por conseguinte, dirigindo-se aos fiéis durante a missa, convidou-os a olhar para «Cristo crucificado», abandonando as vestes de «cristãos tíbios».

«Muitas vezes Jesus, nas suas pregações, nos admoesta para que sejamos vigilantes, que vigiemos, que permaneçamos em expetativa». Numa ocasião, acrescentou Francisco, disse para vigiar «porque não conheceis a hora na qual virá o filho do homem». Com efeito, «a vigilância deve ser preparada em função da vinda do Senhor». Noutras ocasiões Jesus faz esta recomendação «frisando que se “preparem”: é o caso das dez virgens, as prudentes e as insensatas, que não estavam preparadas». As primeiras «tinham tudo pronto, também o óleo das lâmpadas»; as segundas «estavam ali à toa, sem pensar em se preparar».

«Vigiai», portanto, é a sugestão de Jesus que, «outras vezes, o faz aconselhando a oração, a vigilância para não cair em tentação». Por exemplo, afirmou o Pontífice, «di-lo aos seus discípulos no jardim das Oliveiras: eles adormeceram devido ao medo» e ele recomendava: «rezai e vigiai para não cairdes em tentação».

Em síntese, «muitas vezes o Senhor pede para vigiar», porque «o cristão está sempre vigilante, vigia, está atento; tem características da sentinela, deve estar atento». E «hoje o Senhor surpreende-nos com outra vigilância que não é fácil compreender mas é tão comum», observou o Papa referindo-se ao trecho evangélico de Lucas (11, 15-26) proposto pela liturgia.

Na prática, explicou repercorrendo o excerto do Evangelho, Jesus «expulsa um demónio e a seguir fizeram um debate. Alguns disseram: “Tem a autorização de Belzebu”, e toda essa história; Jesus defende-se e, na diatribe, ridiculariza-os. Quando isso terminou, detém-se e diz-nos não uma parábola: em forma de parábola, mas não uma parábola, diz-nos uma verdade. Quando o espírito impuro sai do homem, vagueia por lugares desertos, procurando alívio, mas não o encontrando, diz: “voltarei para a minha casa da qual saí”. Quando chega, encontra-a limpa e adornada. O homem que ali vive é livre. Então vai, toma outros sete espíritos piores do que ele, entram nela e habitam-na. E a última condição daquele homem torna-se pior do que a primeira. A condição daquele homem antes que o demónio fosse expulso da sua vida era melhor do que esta».

O que significam estas palavras de Jesus e quando acontecem estas coisas? Eis a questão apresentada pelo Pontífice ao propor a meditação sobre o trecho do Evangelho de Lucas. «É uma figura» explicou. E o Senhor «usa a figura dos demónios que sofrem no deserto, que vagueiam. Pensemos em quando Jesus expulsa aqueles demónios que se chamam “legiões”, porque são tantos e eles pedem para estarem com os porcos, porque não querem vaguear no deserto». E em particular «diz: “Vagueia por lugares desertos procurando alívio” e depois de algum tempo volta». Mas eis a «surpresa» de «voltar para casa» e encontrá-la «limpa, embelezada: a alma daquele homem estava em paz com Deus e ele não entra». Então «procura outros sete, piores do que ele».

«Aquela palavra — piores — tem tanta força, neste trecho» observou o Pontífice. «E depois entra», diz Lucas. Mas «como entra? Entra suavemente: bate à porta, pede autorização, toca a campainha, volta educadamente». E «esta segunda vez são os diabos educados». Assim «o homem não se dá conta: entram pela surdina, começam a fazer parte da vida, com as suas ideias e com as suas inspirações ajudam também aquele homem a viver melhor e entram na vida dele, entram no seu coração e de dentro começam a mudar aquele homem, mas tranquilamente, sem dar nas vistas».

Todo «este modo», explicou Francisco, «é diferente da possessão diabólica que é forte: esta é uma possessão diabólica quase “de salão”, digamos». E «é isto que o diabo faz lentamente na nossa vida para mudar os critérios, para nos conduzir à mundanidade: mimetiza-se no nosso modo de agir e dificilmente nos damos conta disto». Assim «aquele homem, libertado por um demónio, torna-se maldoso, oprimido pela mundanidade». É precisamente isto «que o diabo quer: a mundanidade».

Com efeito, a mundanidade, afirmou o Papa «é um passo em frente — permito-me a expressão entre aspas — para a “possessão” do demónio. Vem-me à mente o adjetivo que Paulo disse aos Gálatas quando iniciaram este caminho: “Estultos, ó Gálatas insensatos, quem vos encantou? A vós, aos olhos de quem foi apresentado Jesus Cristo crucificado?”».

Portanto, afirmou o Pontífice, «é um encanto: é a sedução porque» o diabo «é o pai da sedução. Pensemos no que fez com Eva: começou a falar, suavemente, suavemente, suavemente» e «saiu-se com a sua “quem vos encantou?”». Mas «quando o demónio entra tão suave e educadamente e toma posse dos nossos comportamentos, os nossos valores passam do serviço a Deus para a mundanidade». Assim «tornamo-nos cristãos tíbios, cristãos mundanos e fazemos esta mistura, esta salada de fruta entre o espírito do mundo e o espírito de Deus». Contudo, advertiu o Papa, «não podemos viver assim: isto afasta do Senhor, mas é muito subtil».

O ponto, prosseguiu Francisco, é questionar-nos «como se faz para não cair e sair disto». A resposta é clara: «Antes de tudo retomando a palavra “vigilância”: não nos assustemos, como Isaías disse a Acaz, “vigilância e calma”», como querendo dizer: «presta atenção». Porque, explicou, «vigiar significa compreender o que acontece no meu coração, significa parar um pouco e examinar a minha vida». A tal propósito o Papa não deixou de propor as perguntas para um exame de consciência pessoal: «Sou cristão? Educo mais ou menos bem os meus filhos? A minha vida é cristã ou mundana? Como posso entender isto?».

Para responder é preciso recorrer à «mesma receita de Paulo: olhar para Cristo crucificado». De facto, assim «compreende-se onde está a mundanidade que só se destrói diante da cruz do Senhor». Precisamente «esta é a finalidade do crucifixo diante de nós: não é um ornamento» mas «é o que nos salva deste encanto, destas seduções que te conduzem à mundanidade».

Eis que se apresenta de novo a pergunta essencial: «Olho para Cristo crucificado? De vez em quando percorro a via-sacra para verificar o preço da salvação, o preço que nos salvou, não só dos pecados mas também da mundanidade?». E, prosseguiu, «como eu disse», serve «o exame de consciência» para verificar «o que acontece mas sempre diante de Cristo crucificado e com a oração». E mais, acrescentou o Pontífice, «far-nos-á bem causar-nos uma fratura, mas não num osso: uma fratura nos comportamentos cómodos: as obras de caridade». Substancialmente: «vivo no conforto, mas farei isto que me custa». Por exemplo «visitar um doente, dar um auxílio a alguém necessitado: uma obra de caridade». «Isto rompe a harmonia que este demónio procura oferecer, estes sete demónios com o chefe, para fazer a mundanidade espiritual».

Ao concluir, o Papa exortou a pensar «nestes três aspetos: Cristo crucificado salvar-nos-á destes demónios educados, deste escorregamento lento para a mundanidade; salvar-nos-á da insensatez, da sedução. O exame de consciência ajudar-nos-á a ver se há estes aspetos. E as obras de caridade, as que custam, levar-nos-ão a ficar mais atentos, mais vigilantes para que estes personagens, que são astutos, não entrem». Por fim, fez votos por que «o Senhor nos conceda esta graça e nos faça recordar o adjetivo de Paulo: “insensato”».