Um dia para ouvir (23 de março de 2017)

PAPA FRANCISCO

MEDITAÇÕES MATUTINAS NA SANTA MISSA CELEBRADA
NA CAPELA DA CASA SANTA MARTA

Um dia para ouvir

Quinta-feira, 23 de março de 2017

Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 14 de 6 de abril de 2017

Entre as muitas jornadas especiais que se celebram por várias razões, seria útil dedicar um «dia para ouvir». Imergidos como estamos na «confusão», nas palavras, na pressa, no nosso egoísmo, na «mundanidade», com efeito corremos o risco de permanecer «surdos à palavra de Deus», de «endurecer» o nosso coração e de «perder a fidelidade» ao Senhor. É necessário «deter-se» e «ouvir». Na homilia, retomando os textos da liturgia do dia, observou: «Precisamente em meados de Quaresma, neste caminho rumo à Páscoa, a mensagem da Igreja hoje é muito simples: “Parai. Parai um momento”». Mas «por que devemos parar?». A resposta foi dada pelo refrão do salmo responsorial (94): «Hoje não fecheis o vosso coração, mas ouvi a voz do Senhor». Portanto, «detende-vos para ouvir».

Daqui começou a reflexão do Pontífice, o qual sucessivamente examinou a leitura do profeta Jeremias (7, 23-28) na qual se narra, através das palavras do próprio Deus, «o drama daquele povo que não quis, não soube ouvir. “Escutai a minha voz: serei vosso Deus e vós sereis o meu povo”». O convite do Senhor é claro: «segui sempre a senda que vos indicar, a fim de que sejais felizes». Ou seja, explicou o Papa, é como se o Senhor tivesse dito ao seu povo: «As coisas que eu vos disser são para a vossa felicidade. Não sejais estultos. Acreditai nisto. Detende-vos: ouvi». Porém, um convite que caiu no esquecimento. A ponto que «depois o Senhor lamenta-se um pouco; é a lamentação de um pai entristecido: “Mas eles não ouviram, nem prestaram atenção à minha palavra, aliás, procederam com obstinação segundo o seu coração malvado. Em vez de se dirigirem a mim, deram-me as costas”».

Imediatamente Francisco relacionou a narração bíblica com a situação do homem de hoje: «Quando não paramos para ouvir a voz do Senhor acabamos por nos afastarmos, afastamo-nos d'Ele, damos as costas». Uma atitude, acrescentou, que comporta consequências: «se não se ouve a voz do Senhor, escutam-se outras vozes. E de tanto fechar os ouvidos, tornamo-nos surdos: surdos à palavra de Deus». Ninguém pode considerar-se imune a esta situação, como evidenciou o Papa dirigindo-se aos fiéis presentes: «Todos nós, se hoje nos detivermos um pouco e olharmos para o nosso coração, veremos quantas vezes fechamos os ouvidos e quantas vezes nos tornamos surdos».

O que comporta esta surdez? «Quando um povo, uma comunidade, mas podemos dizer também uma comunidade cristã, uma paróquia, uma diocese fecha os ouvidos e se torna surdo à palavra do Senhor, procura outras vozes, outros senhores e acaba por seguir os ídolos, os ídolos que o mundo, a mundanidade, a sociedade lhe oferecem». Isto é, afastamo-nos «do Deus vivo». Mas esta não é a única consequência. Com efeito, o Papa sublinhou que «dar as costas faz com que o nosso coração se endureça. E quando não se ouve, o coração torna-se mais duro, mais fechado em si mesmo, duro e incapaz de receber algo». Portanto: «não só fechamento», mas também «dureza de coração». Nesta situação o homem «vive naquele mundo, naquele clima que não lhe faz bem», numa realidade que «o afasta sempre de Deus».

É um processo negativo que leva do «não ouvir a palavra de Deus» ao afastar-se, portanto ao «coração endurecido, fechado em si mesmo», até chegar a perder «o sentido da fidelidade». De facto, sempre no trecho de Jeremias, lê-se a lamentação do Senhor: «A fidelidade desapareceu». Também aqui, imediatamente, o Papa se referiu à contemporaneidade: é assim, disse, que «nos tornamos católicos “infiéis”, católicos “pagãos” ou, pior ainda, católicos “ateus”, porque não temos uma referência de amor ao Deus vivo». Por conseguinte, aquele «não ouvir e dar as costas» que «nos faz endurecer o coração», leva o homem «por aquele caminho da infidelidade».

E não termina aqui. Há «mais». Com efeito, «como se pode encher» o vazio interior que criamos com a nossa infidelidade? Enche-se, respondeu o Pontífice, «com a confusão», quando «não se sabe onde está Deus, onde não está», e «confunde-se Deus com o diabo». É precisamente a situação descrita no Evangelho de Lucas (11, 14-23), no qual se narra o episódio em que «a Jesus, que faz alguns milagres, que faz tantas coisas para a salvação e as pessoas estão contentes, estão felizes», alguns dizem: «Ele faz isso porque é filho do diabo. Age com o poder de Belzebu, príncipe dos demónios». Esta, explicou Francisco, «é a blasfémia. A blasfémia é a palavra final deste percurso que começa com o não ouvir, que endurece o coração, que te leva à confusão, te faz esquecer a fidelidade e, por fim, blasfemas». Comentou o Papa: «Ai do povo que se esquece daquela admiração, daquela admiração do primeiro encontro com Jesus». É a admiração descrita também no Evangelho — «as multidões ficaram admiradas» — que «abre as portas à palavra de Deus».

Por isso, concluiu o Pontífice convidando todos a um sério exame de consciência, «cada um de nós hoje pode questionar-se “Detenho-me para ouvir a palavra de Deus, pego na Bíblia, e será que me fala?»; e ainda: «O meu coração endureceu-se? Afastei-me do Senhor? Perdi a fidelidade ao Senhor e vivo com os ídolos que me oferece a mundanidade de cada dia? Perdi a alegria da maravilha do primeiro encontro com Jesus?». «Hoje é um dia para ouvir. “Ouvi, hoje, a voz do Senhor”. “Não endureçais o vosso coração”». E a sugestão para a oração pessoal é a seguinte: «Peçamos esta graça: a graça de ouvir para que o nosso coração não se endureça».