Um depois do outro (24 de janeiro de 2017)

PAPA FRANCISCO

MEDITAÇÕES MATUTINAS NA SANTA MISSA CELEBRADA
NA CAPELA DA CASA SANTA MARTA

Um depois do outro

Terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 04 de 26 de janeiro de 2017

Elos de uma longa corrente de «eis-me!» que começa com Abraão e chega até hoje, passando por aquele decisivo de Jesus ao Pai. Segundo o Papa Francisco assim são os cristãos chamados todos os dias para «fazer a vontade do Senhor», inseridos no desígnio providencial da história da salvação. Uma realidade aprofundada graças à meditação sobre as leituras deste dia. A liturgia, observou o Pontífice, em continuidade com a do dia anterior, fez refletir «sobre o sacerdócio de Jesus, o sacerdócio definitivo, único». Ponto de partida, mais uma vez, foi a primeira leitura tirada da carta aos Hebreus (10, 1-10) na qual é tratado o tema do sacrifício.

«Os sacerdotes — explicou Francisco — naquela época, ofereciam sacrifícios que deviam ser oferecidos continuamente, ano após ano, porque não eram definitivos, de uma vez para sempre». A mudança decisiva foi realizada com «o sacerdócio de Jesus que faz o único sacrifício de uma vez para sempre». Uma diferença substancial: «naqueles sacrifícios renova-se cada ano a memória dos pecados com o pedido de perdão», pelo contrário, Cristo diz: «Não quiseste sacrifícios nem oblação, mas formaste-me um corpo. E afirma: “Eis que venho — ó Deus — para fazer a tua vontade”».

Foi precisamente este, sugeriu o Papa, «o primeiro passo» de Jesus no mundo: «venho para fazer a tua vontade». E a vontade do Pai era que «com este sacrifício se abolissem todos os sacrifícios e este permanecesse o único». Portanto lê-se na Escritura: «Tu não quiseste, tu não recebeste com agrado os sacrifícios nem as ofertas, nem os holocaustos, nem as vítimas pelo pecado. Eis que venho para fazer a tua vontade».

Precisamente esta palavra de Jesus, disse o Pontífice, encerra uma história de «eis-me» encadeados — a história da salvação é isto: uma sucessão de “eis-me” encadeados». Tudo teve início com Adão que «se escondeu porque temia o Senhor»: a partir de então o Senhor começou «a chamar e a ouvir a resposta de homens e mulheres que dizem: “Eis-me. Estou disposto. Estou disposta”». Até chegar «ao último “eis-me”, o de Jesus: “para fazer a tua vontade”». O Papa recordou brevemente esta história evocando Abraão, Moisés, os profetas Isaías e Jeremias. E também: o pequeno Samuel, que ouve a voz do Senhor e responde: «Eis-me, Senhor». Até chegar «ao último grande “eis-me” de Maria: “Faça-se a vontade de Deus. Sou a serva. Eis-me”».

Trata-se de «uma história de “eis-me”», mas — frisou Francisco — de «“eis-me”» não automáticos». De facto, em cada uma das narrações bíblicas mencionadas constatamos que «o Senhor dialoga com aqueles que convida».

Abraão até «negociou» com ele para «não destruir as duas cidades». Do mesmo modo, Isaías objetava: «Mas, são pecadores, não posso...», e Jeremias: «Mas sou um menino, não sei falar...» e o Senhor tranquilizava-o: «Eu farei com que fales!». Para Elias que se lamentava: «Tenho medo, quero morrer, não, tenho medo, não quero», a resposta foi: «Levanta-te: come, bebe e vai!».

«O Senhor — disse o Papa resumindo com uma única consideração todas estas citações — dialoga sempre com aqueles que convida a percorrer esta estrada e a responder “eis-me”. Tem tanta paciência, muita paciência». E acrescentou um ulterior exemplo recordando «os raciocínios de Job, que não compreende», e as respostas do Senhor que «o corrige», até chegar o seu «eis-me»: «Senhor, tu tens razão: eu conhecia-te só de ouvir falar, agora os meus olhos viram-te». Neste ponto o Pontífice introduziu um ensinamento válido para todos os homens de hoje: «A vida cristã é isto: um “eis-me”, um “eis-me” contínuo».

«Um atrás do outro» todos os «eis-me» pronunciados se encontram na Bíblia. «É bom», disse o Papa, «ler a Escritura» indo buscar precisamente «as respostas das pessoas ao Senhor», todas as vezes que alguém respondeu: «Eis-me, estou aqui para fazer a tua vontade». Bom e envolvente, porque — explicou Francisco — esta «liturgia da palavra de hoje nos convida a refletir: “Mas como vai o meu “eis-me” ao Senhor? E o “eis-me” da minha vida, como está?». Exatamente quando revemos as Escrituras damo-nos conta de que a resposta não é banal: «Escondo-me como Adão para não responder? Ou quando o Senhor me chama, em vez de dizer “eis-me” ou “o que queres de mim?”, fujo, como Jonas que não queria fazer o que o Senhor lhe pedia?». Ou então: «finjo que faço a vontade do Senhor, mas só externamente, como os doutores da lei que Jesus condena duramente» porque «fingimos» e dizemos: «Tudo bem... nada de perguntas: faço isto e nada mais»! Entre as respostas possíveis poderia estar também aquela de olhar «para o outro lado como fizeram o levita e o sacerdote diante daquele pobre homem ferido, espancado pelos salteadores e abandonado quase morto».

Então, prosseguiu o Pontífice, dado que o Senhor chama «cada um de nós», e «todos os dias»: devemos questionar-nos: «Como é a minha resposta ao Senhor?». É a resposta do «eis-me»? «ou me escondo? Fujo? Finjo? Olho para o outro lado?».

Alguém poderia até ter uma dúvida: «Pode-se discutir» com o Senhor? «Sim! — disse Francisco — Ele aprecia isto. Ele gosta de discutir connosco». Por isso, contou o Papa, quando alguém me diz: «Mas, padre, quando eu rezo muitas vezes, enraiveço-me com o Senhor...», a resposta é: «também isto é oração! Deus gosta quando te enraiveces e lhe dizes na cara o que sentes, porque é pai! Mas também isto é um “eis-me”».