Um coração novo (20 de janeiro de 2017)

PAPA FRANCISCO

MEDITAÇÕES MATUTINAS NA SANTA MISSA CELEBRADA
NA CAPELA DA CASA SANTA MARTA

Um coração novo

Sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 04 de 26 de janeiro de 2017

«A debilidade de Deus» é que, perdoando-nos, chega a esquecer os nossos pecados. E portanto está sempre pronto para nos fazer radicalmente «mudar de vida, não só a mentalidade e o coração». Mas, da nossa parte, tem que haver o compromisso a viver até ao fim esta «nova aliança», esta «recriação», pondo de lado a tentação de condenar e os desatinos da mundanidade, e reavivando sempre a nossa «pertença» ao Senhor. Eis as indicações práticas sugeridas pelo Papa na missa celebrada em Santa Marta.

A liturgia, observou imediatamente Francisco, «contém uma prece, uma oração muito bonita, que nos faz compreender a profundidade da obra de Jesus Cristo: “Ó Deus, tu que maravilhosamente criaste o mundo, mas mais admiravelmente o recriaste”, ou seja, com o sangue de Jesus, com a redenção». Precisamente «esta renovação, esta recriação é aquilo de que fala hoje a primeira leitura», tirada da carta aos Hebreus (8, 6-13).

Estamos diante da promessa do Senhor: «Eis que virão dias nos quais eu estabelecerei uma nova aliança. Mas não será como a que fiz com os seus pais”». É portanto «uma aliança nova e a nova aliança que Deus estabelece em Jesus Cristo é a recriação: renova todas as coisas». É este o significado de «renovar todas as coisas pela raiz, não só na aparência».

Esta nova aliança — explicou o Papa — tem as suas próprias características». Lê-se ainda na carta aos Hebreus: «Esta é a aliança que eu estabelecerei com a casa de Israel depois daqueles dias, diz o Senhor: porei as minhas leis nas suas mentes e inscrevê-las-ei nos seus corações». Isto significa, afirmou Francisco, que «a lei do Senhor não é só um modo de agir externo», porque «a aliança que ele fará é gravar a lei na mente e no coração: muda a nossa mentalidade». Por isso «na nova aliança há uma mudança de mentalidade, há uma mudança de coração, uma mudança de sentir, de agir: é uma maneira diversa de ver as coisas».

Para fazer compreender este ponto, o Pontífice recorreu a um «exemplo: posso ver a obra de uma pessoa, pensemos num arquiteto» e avaliá-la «com uma atitude fria, técnica, objetiva», dizendo: «está bem, tecnicamente está bem». Ou então, prosseguiu o Papa, «posso vê-la com inveja porque fez uma coisa boa que eu não sou capaz de fazer», e esta é outra atitude». Mas, ainda, «a posso ver com benevolência, até com alegria», dizendo: «parabéns, foste excecional, gosto muito disto, também eu estou feliz!». Portanto são «três atitudes diversas».

«A nova aliança — disse Francisco — muda o nosso coração e mostra-nos a lei do Senhor com este novo coração, com esta nova mente». Depois, referindo-se «aos doutores da lei que perseguiam Jesus», o Papa recordou que «faziam tudo o que a lei prescrevia, tinham o direito na mão, tudo. Mas a sua mentalidade estava distante de Deus, era uma mentalidade egoísta, centrada sobre eles mesmos: o seu coração era um coração que condenava». Em suma, viviam «sempre a condenar». Mas eis que «a nova aliança nos muda o coração e a mente: dá-se uma mudança de mentalidade».

Retomando o trecho da carta aos Hebreus, o Pontífice pôs em evidência como «o Senhor vai em frente: “Gravarei as minhas leis na sua mente e imprimi-las-ei nos seus corações. Porque eu perdoarei as suas iniquidades e não me recordarei dos seus pecados”».

Precisamente refletindo sobre estas palavras, acrescentou Francisco, «por vezes gosto de pensar, quase a brincar com o Senhor: “Tu não tens boa memória!”». Esta «é a debilidade de Deus: quando Deus perdoa, esquece». A ponto que «o Senhor nunca dirá “vais pagar!”: ele esquece, porque perdoa». Perante «um coração arrependido, perdoa e esquece: “Eu esquecerei, não recordarei os pecados deles”». E «também este é um convite a não fazer recordar ao Senhor os pecados, ou seja, a não voltar a pecar: “Tu perdoaste-me, tu esqueceste, mas eu tenho que...”». Trata-se precisamente de uma verdadeira «mudança de vida: a nova aliança renova-me e faz-me mudar de vida, não só de mentalidade e de coração, mas de vida». Ela estimula a «viver assim, sem pecado, longe do pecado». E «esta é a recriação: assim o Senhor recria todos nós».

O trecho da carta aos Hebreus propõe depois «uma terceira característica, uma mudança de pertença». Com efeito, lê-se: «Serei o seu Deus e eles serão o meu povo». É «aquela pertença» que leva a dizer: «Tu és o único Deus para mim, os outros deuses não existem». Porque, acrescentou Francisco, «os outros deuses, como dizia um idoso que conheci, são disparates: “só tu és o meu Deus e eu sou teu, este povo é teu”».

Por conseguinte, insistiu o Pontífice, «mudança de mentalidade, de coração, de vida e de pertença: esta é a recriação que o Senhor faz de modo mais maravilhoso do que a primeira criação».

Em conclusão, Francisco sugeriu que pedíssemos «ao Senhor para continuar esta aliança, para ser fiéis; o selo desta aliança, desta fidelidade, ser fiel a esta obra que o Senhor faz para mudar a nossa mentalidade e coração». Recordando sempre que «os profetas diziam: “o Senhor mudará o teu coração de pedra em coração de carne”». Eis então, reafirmou o Papa, o compromisso a «mudar o coração, a vida, a não voltar a pecar e a não fazer recordar ao Senhor com os nossos pecados de hoje aquilo que ele esqueceu, e a mudar de pertença: nunca pertencer à mundanidade, ao espírito do mundo, aos disparates do mundo, só ao Senhor».