Três vozes (24 de novembro de 2016)

PAPA FRANCISCO

MEDITAÇÕES MATUTINAS NA SANTA MISSA CELEBRADA
NA CAPELA DA CASA SANTA MARTA

Três vozes

Quinta-feira 24 de novembro de 2016

Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 48 de 1 de dezembro de 2016

Uma série de sugestões bíblicas, e inclusive práticas, para saber reconhecer realmente e ouvir «a voz do Senhor» — sem cair na tentação da corrupção e da mundanidade, redescobrindo a beleza da oração silenciosa de adoração — foram propostas pelo Papa Francisco durante a missa desta manhã. «Nesta última semana do ano litúrgico — observou imediatamente o Papa — a Igreja faz-nos refletir sobre o fim, porque haverá um fim: um fim do mundo, um fim de cada um de nós». E «a Igreja quer que reflitamos sobre isto: como será o fim». Nestes últimos dias, especificou, «refletimos seguindo as leituras: hoje gostaria de analisar somente, sempre seguindo as leituras, três vozes, três vozes que aparecem na liturgia da palavra: um brado, uma voz poderosa e outra sussurrada».

A primeira voz proposta por Francisco é, por conseguinte, «o brado»: a referência é ao brado «em voz alta» do anjo, como se lê no trecho tirado do livro do Apocalipse (18, 1-2.21-23; 19, 1-3.9) proposto na primeira leitura. O anjo «gritou em voz alta: “caiu a Babilónia”». Que, explicou o Papa, «semeava a corrupção nos corações das pessoas, levava-nos a todos nós, e leva-nos a todos, pelos caminhos da corrupção».

«A corrupção — explicou — é o modo de viver na blasfémia, a corrupção é uma forma de blasfémia, a linguagem desta Babilónia, desta mundanidade, blasfémia: não há Deus», mas «há o deus dinheiro, o deus bem-estar, o deus exploração».

O Pontífice prosseguiu afirmando que «esta Babilónia, esta mundanidade, esta realeza do mundo que seduz os grandes da terra — alguns não caem e são santos, outros caem por causa do poder da corrupção, o “poder da blasfémia” — cairá, esta civilização cairá e o brado do anjo é um grito de vitória: “Caiu”». Assim acaba a Babilónia «que enganava com as suas seduções. E o império da vaidade, do orgulho cairá, como caiu Satanás, cairá».

Eis também a segunda voz, «poderosa, mas não de um anjo», narrada por João no mesmo trecho do Apocalipse: «Depois disto, ouvi como que uma voz poderosa de uma grande multidão no céu que dizia: “Aleluia! Salvação, glória e poder são do nosso Deus”». E «contrariamente ao brado do anjo, que era um grito de vitória porque esta cidade corrupta tinha caído, esta civilização corrupta — explicou o Papa — há o brado da multidão, do povo de Deus, o brado de louvor: “Salvação, glória e poder são do nosso Deus, porque verdadeiros e justos são os seus julgamentos”».

Esta, disse o Pontífice, «é a voz poderosa da adoração, da adoração do povo de Deus que se salva, e também do povo a caminho que ainda está sobre a terra». O povo de Deus, continuou, é «pecador mas não corrupto: pecador que sabe pedir perdão, pecador que procura a salvação de Jesus Cristo». E «este povo rejubila quando vê o fim: é a alegria da vitória no povo de Deus que se faz adoração, é a voz poderosa da adoração».

«A nossa atitude — afirmou Francisco — é sempre positiva. Não podemos permanecer sós com o primeiro brado do anjo se não houver o outro, esta voz poderosa da adoração de Deus, o Senhor». Portanto, o primeiro «brado» é «a queda». E «o segundo é a adoração». Mas «para poder adorar devemos começar aqui a fazer a adoração e para os cristãos não é fácil adorar: somos bons quando rezamos pedindo algo». E «quando rezamos agradecemos também ao Senhor» ou rezamos «pelos outros: somos bons nisto, sabemos fazê-lo». Mas «adorar, a oração de adoração, de louvor, aquela não é fácil», frisou o Pontífice. Por isso «devemos aprendê-la, devemos aprendê-la desde agora para não ter que a aprender depressa quando chegarmos lá». Francisco convidou a colocar-se «diante do Senhor, diante do tabernáculo, em silêncio» e «adorar». Com efeito, a adoração é uma «bonita oração porque diz simplesmente: «Tu és Deus, eu sou um pobre filho amado por ti». E «isto é muito bonito: adorar». Enfim, «a terceira voz», proposta pelo Papa, «não é um brado nem uma voz poderosa: é uma voz sussurrada, é um sussurro». De facto, lê-se no trecho do Apocalipse: «Então o anjo disse-me: “Escreve, bem-aventurados os que são chamados ao banquete das núpcias do Cordeiro!”».

«O convite do Senhor — explicou — é sempre uma voz sussurrada, é uma voz suave, como diz o livro dos Reis. Deus fala a Elias, com “um fio de silêncio sonoro”: que bonito! A voz de Deus, quando fala ao coração é assim: como um fio de silêncio sonoro, o sussurro de Deus». É precisamente «aquele convite, aquela promessa que nos fez, que fez ao povo: “Por isso a atrairei, conduzi-la-ei ao deserto e falar-lhe-ei ao coração”, com esta voz suave».

«E este convite será — afirmou o Papa — o fim, a nossa salvação: convite ao banquete de núpcias do Cordeiro». Isto «faz-nos pensar que aqueles que conseguiram participar do banquete, segundo a parábola de Jesus, não foram os convidados que se recusaram a ir; são os que estavam na encruzilhada dos caminhos, bons e maus, cegos, surdos, aleijados, todos nós pecadores, mas com suficiente humildade para dizer: “Sou um pecador e Deus salvar-me-á”». E «se tivermos isto no coração, ele convidar-nos-á; ouviremos este sussurro, esta voz sussurrada a nós, este fio de silêncio sonoro que diz: “Vem, vem ao banquete”».

Na conclusão Francisco recordou que o trecho do Evangelho de Lucas (21, 20-28), proposto pela liturgia «termina com esta voz: “Quando começarem a acontecer estas coisas — ou seja a destruição da soberba, da vaidade, tudo isto — reanimai-vos e levantai as vossas cabeças; porque se aproxima a vossa libertação». Isto significa que «te estão a convidar para as núpcias do Cordeiro». E então, auspiciou o Papa, «o Senhor nos dê esta graça de esperar aquela voz, de nos prepararmos para ouvir esta voz: “Vem, vem, vem servo fiel, pecador mas fiel: vem, vem ao banquete do teu Senhor».