Três mundos para um só Samuel

2013-07-09 L’Osservatore Romano

São feitos aventurosos, mesmo tendo sido  minuciosamente reconstruídos com base em fontes irrepreensíveis,  a história que os historiadores   Mercedes García-Arenal, espanhola, e  Gerard Wiegers, holandês,  reevocam em L'uomo dei tre mondi. Storia di Samuel Pallache, ebreo marochino nell'Europa del Seicento (Roma, Viella, 2013, 260 páginas). Partindo de Marrocos, seu país natal, passa pelo mundo protestante da jovem República holandesa, pelo católico da Espanha de Filipe III, ao qual deseja em vão  voltar, ele filho dos exilados do distante ano de 1492;  o muçulmano, pelo qual se sente protegido, chegando ao dos mourescos que com os judeus dividem a dura condição de exilados.

Simbolicamente, Pallache passa por  estes mundos através do seu papel de tradutor e do recurso à ficção e à duplicidade, embora sem nunca renegar a sua condição de «judeu público», isto é, sem jamais passar pelo limiar do baptismo. Depois, fisicamente, Pallache atravessa continuamente a fronteira representada pelo Mediterrâneo, navega muitas vezes da Holanda para Marrocos, comercializando, participando de guerras e assaltando os navios.  Acaba por ser processado em Londres por pirataria, para enfim voltar à Holanda, absolvido mas arruinado, só para  morrer poucos meses depois e ser sepultado no cemitério judaico de Ouderkerk, acompanhado pelos mais altos dignatários da República holandesa.

Uma história extraordinária mas muito semelhante a tantas histórias de outros homens do seu tempo, judeus ou marranos, mourescos ou cristãos renegados, obrigados a ter várias religiões, a mudar aparência e hábito cada vez que passavam  de uma fronteira para outra. Contudo, Pallache distingue-se de quantos tinham abandonado a religião dos pais para adoptar  mais ou menos forçadamente outra, prontos a voltar à primeira logo que os tempos e os lugares o consentissem: judeu barbaresco, nascido em Fez de uma família de origem espanhola, manteve sempre fé nas tradições da sua religião.

Não é simpático nem parece simpático aos seus biógrafos. É um homem essencialmente duplo, como os seus contemporâneos gostam de evidenciar, retomando os velhos topoi anti-semitas que sobreviviam vitais também na liberal República das Províncias Unidas. De uma duplicidade que pertence, no entanto, à sua época, a época da dissimulação, embora ele se tenha mantido toda a vida no ápice entre dissimulação honesta e desonesta. É também, com a sua múltipla identidade, um homem que chega, como muitos dos portugueses seus contemporâneos, a adoptar uma atitude céptica em relação a todas as religiões positivas, a criar-se uma religião totalmente interiorizada. Talvez partilhe com os  marranos  o êxito daquela passagem entre as religiões que ele nunca realizou, embora tenha imaginado: isto é, o ser indivíduo no sentido moderno do termo e dialogar, como concluem os autores, só com a própria consciência.

Anna Foa