Três maravilhas (23 de janeiro de 2017)

PAPA FRANCISCO

MEDITAÇÕES MATUTINAS NA SANTA MISSA CELEBRADA
NA CAPELA DA CASA SANTA MARTA

Três maravilhas

Segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 04 de 26 de janeiro de 2017

São três «as grandes maravilhas do sacerdócio de Jesus: ofereceu a vida por nós uma vez por todas; continua também agora a rogar por cada um de nós; voltará para nos levar consigo». Ao homem é pedido que «não feche o coração» para «se deixar perdoar pelo Pai». E precisamente a missa faz compreender plenamente esta linda verdade, disse o Papa Francisco.

«Cantai ao Senhor um canto novo, porque fez maravilhas»: com as palavras do salmo responsorial o Pontífice abriu a sua meditação, repetindo que «o Senhor fez maravilhas». E com as palavras do salmo 97 continuou: «O Senhor fez grandes coisas, grandes maravilhas». Mas, acrescentou, «a maior maravilha é o seu Filho sacerdote». Na primeira leitura, explicou, «o autor da carta aos Hebreus (9, 15.24-28) apresenta-nos Cristo sacerdote, mediador da aliança que Deus faz com os homens: Jesus é o sumo sacerdote». E «o sacerdócio de Cristo — podemos dizer, daquilo que se vê aqui — realiza-se em três momentos, três etapas».

A primeira etapa, afirmou, «consiste na redenção: Cristo ofereceu-se uma vez para sempre, pelo perdão dos pecados». Ele «faz a comparação com os sacerdotes da antiga aliança que, todos os anos, deviam oferecer sacrifícios». Eis a novidade: com Cristo é «uma vez para sempre, e isto é uma maravilha; e com esta maravilha Ele fez-nos filhos, levou-nos ao Pai, perdoou os nossos pecados, recriou a harmonia da criação com a sua vida».

«A segunda maravilha, de certo modo ligada ao pecado, é a que o Senhor faz agora», prosseguiu o Papa. Com efeito, «agora o Senhor intercede, roga por nós: sim, neste momento, enquanto nós rezamos Ele roga por nós, certamente por todos, por cada um de nós». É «a intercessão, o sacerdote que intercede: primeiro ofereceu a vida em resgate; agora, vivo, diante do Pai, intercede». Na última ceia, recordou, o Senhor «disse: “Roguei por vós, para que a vossa fé não desfaleça”». Portanto, Jesus «roga por nós e isto é uma segurança: Cristo, nosso sacerdote, roga por nós». De resto, observou, «quantas vezes dizemos ao sacerdote: “Padre, reze por mim, pelo meu filho, pela minha família, temos este problema...”». Fazemo-lo «porque sabemos que a oração do sacerdote tem uma certa força, precisamente no sacrifício da missa». E «neste momento é Jesus quem roga por nós, por cada um de nós, e isto é uma maravilha, uma segunda maravilha».

«A terceira maravilha será o fim, quando Ele voltar», afirmou o Pontífice. Ele «voltará como sacerdote, sim, desligado do pecado: a primeira vez deu a sua vida pelo perdão dos pecados; a segunda vez — agora — roga por nós, porque somos pecadores e vamos em frente na vida cristã; mas quando vier pela terceira vez não estará ligado ao pecado, será para tornar o reino definitivo». E a «palavra mais bonita daquele dia» será: «Vinde, bem-aventurados, vinde a mim!». Assim «nos levará todos ao Pai: é este o sacerdócio de Cristo, do qual nos fala a primeira leitura, e trata-se da grande maravilha que nos faz cantar um canto novo».

Francisco indicou também «dois pontos contrastantes na liturgia de hoje». Por um lado, «há esta grande maravilha, este sacerdócio de Jesus em três etapas — aquela em que perdoa os pecados uma vez para sempre; aquela em que intercede agora por nós; e aquela que terá lugar quando Ele voltar — mas há também o contrário, “a blasfémia imperdoável”», como se lê no trecho do Evangelho de Marcos (3, 22-30). E «é duro — comentou — ouvir Jesus dizer isto: mas é Ele quem o diz, e se o diz é verdade».

Com efeito, Marcos escreve, citando as palavras do Senhor: «Em verdade vos digo: tudo será perdoado aos filhos dos homens — e sabemos que o Senhor perdoa tudo, se abrirmos um pouco, totalmente, o coração! — os pecados e todas as blasfémias que disserem — até as blasfémias serão perdoadas! — mas quem tiver blasfemado contra o Espírito Santo não será perdoado eternamente: é réu de culpa eterna». Assim esta pessoa, «quando o Senhor voltar, ouvirá estas palavras: “Afasta-te de mim!”». E isto porque, explicou, «a grande unção sacerdotal de Jesus foi o Espírito Santo quem a fez no seio de Maria: os sacerdotes, na celebração de ordenação, são ungidos com o óleo; e fala-se sempre da unção sacerdotal». Até «Jesus, como sumo sacerdote, recebeu esta unção». E «a primeira unção» foi «a carne de Maria por obra do Espírito Santo». Assim, quem «blasfema sobre isto, fá-lo sobre o fundamento do amor de Deus, que é a redenção, a recriação; blasfema sobre o sacerdócio de Cristo».

«O Senhor perdoa tudo — explicou — mas quem diz tais coisas está fechado ao perdão, não quer ser perdoado, nem se deixa perdoar». Precisamente «esta é a fealdade da blasfémia contra o Espírito Santo: não se deixar perdoar, porque renega a unção sacerdotal de Jesus feita pelo Espírito Santo».

E assim, prosseguiu, «hoje ouvimos, nesta liturgia da palavra, as grandes maravilhas do sacerdócio de Cristo que se oferece a si mesmo pelo perdão dos pecados, que continua a rogar por nós agora e que voltará para nos levar com Ele». È verdadeiramente uma «grande maravilha». Mas, acrescentou, «também ouvimos que há uma “blasfémia imperdoável” e não porque o Senhor não quer perdoar tudo, mas porque certas pessoas são tão fechadas que não se deixam perdoar: a blasfémia contra esta grande maravilha de Jesus».

Concluindo, Francisco sugeriu que «hoje nos fará bem, durante a missa, pensar que aqui no altar se faz a memória viva — porque ali Ele estará presente — do primeiro sacerdócio de Jesus, quando oferece a sua vida por nós; há também a memória viva do segundo sacerdócio, porque Ele rogará aqui; mas também nesta missa — di-lo-emos após o Pai-Nosso — há o terceiro sacerdócio de Jesus, quando Ele voltar como nossa esperança da glória». Portanto, insistiu o Papa, «nesta missa pensemos nestas coisas boas e peçamos ao Senhor a graça de que o nosso coração nunca se feche — nunca se feche! — diante desta maravilha, desta grande gratuidade».