Tentados pela mundanidade (21 de fevereiro de 2017)

PAPA FRANCISCO

MEDITAÇÕES MATUTINAS NA SANTA MISSA CELEBRADA
NA CAPELA DA CASA SANTA MARTA

Tentados pela mundanidade

Terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 08 de 23 de fevereiro de 2017

O esforço diário de todos os cristãos para procurar vencer a «tentação da mundanidade», do «sentir-se superior aos outros», foi o tema central da meditação do Papa Francisco.

Uma tentação inevitável, explicou o Pontífice, inspirando-se na liturgia da palavra. Antes de tudo na leitura tirada do livro do Eclesiástico (2, 1-13) onde está escrito: «Meu filho, se entrares para o serviço de Deus, permanece firme na justiça e no temor, e prepara a tua alma para a provação». Explicou o Papa: «A vida cristã é uma vida com tentações» e portanto «devemos estar preparados para as tentações» porque «todos seremos tentados».

A confirmação encontra-se no Evangelho de Marcos (9, 30-37) no qual se narra de Jesus que «ia com os discípulos decidida e resolutamente rumo a Jerusalém para cumprir a sua missão», isto é, «fazer a vontade do Pai». Jesus antecipava aos discípulos o que lhe teria acontecido em Jerusalém: «O Filho do Homem será entregue nas mãos dos homens e matá-lo-ão». Mas «ressuscitará três dias depois da sua morte». No entanto os discípulos «não compreendiam estas palavras e tinham medo de o interrogar, de pedir mais explicações», a ponto que diziam: «Paremos aqui. É melhor». Isto é, sentiam «a tentação de não cumprir a missão». Uma tentação, frisou o Pontífice, à qual foi submetido inclusive o próprio Jesus «pelo menos duas vezes». A primeira, no deserto, com as três propostas do diabo «de realizar a redenção através de outra via, mais fácil, mais simples». Depois, na outra vez «foi Pedro que o tentou» quando, a Jesus que falava do seu destino, disse: «Não, nunca aconteça isto, Senhor!». E também a ele Jesus respondeu: «Vade retro, Satanás!». De facto «Pedro fazia o mesmo que o diabo, Satanás, tinha feito no deserto».

Um aspeto «interessante» da narração evangélica que Francisco frisou é que os discípulos «não queriam ouvir esta palavra de Jesus». Aliás «não entendiam estas palavras e sentiam medo de o interrogar». As dificuldades dos discípulos são esclarecidas melhor continuando a leitura. Com efeito «quando chegaram a Cafarnaum, Jesus pergunta-lhes: “De que faláveis pelo caminho?”». E também aqui, frisou o Pontífice, eles «calaram-se». Mas desta vez calaram-se «devido à vergonha».

De facto, se a primeira vez tinham sentido «medo» e repetiam «não, não perguntemos nada, melhor estarmos calados», desta vez envergonhavam-se porque pelo caminho «tinham discutido entre si quem era o maior». Envergonharam-se daquela discussão. Uma dupla atitude, do medo e da vergonha, explicada pelo Papa: «Eram bons, queriam seguir o Senhor, servir o Senhor. Mas não sabiam que o caminho do serviço ao Senhor não era tão fácil, não era como se alistar numa entidade, numa associação de beneficência». E «tinham medo disto». Por outro lado, sentiam «a tentação da mundanidade».

Mas, advertiu Francisco, não era uma tentação só deles: «Desde que a Igreja nasceu até hoje, isto aconteceu, acontece e acontecerá». Sucede por exemplo «nas paróquias» onde há sempre «lutas» e pode-se ouvir alguém dizer: «Quero ser presidente desta associação, fazer carreira»; ou então: «Quem é o maior aqui? Quem é o maior desta paróquia? Não, eu sou mais importante do que este, e aquele não porque se comportou mal...». Tentação da mundanidade da qual parte «a corrente dos pecados» como «falar mal do outro» ou os mexericos, que são coisas úteis para o «sucesso».

Uma tentação, advertiu o Papa, da qual o clero não está isento: «Algumas vezes dizemos com vergonha nós sacerdotes, nós presbíteros: “Gostaria de estar naquela paróquia...” — “Mas o Senhor está aqui...” — “Mas eu queria aquela...”». Segue-se então não «o caminho do Senhor» mas o da «vaidade, da mundanidade». E, continuou, «também entre nós, bispos, acontece o mesmo: a mundanidade vem como tentação». E assim acontece que um bispo diga: «Estou nesta diocese mas olho para aquela mais importante» e move-se para fazer pressões, para procurar influências, para forçar «e chegar lá». Resumindo, esclareceu o Pontífice «a missão é servir o Senhor, mas depois o verdadeiro desejo, muitas vezes, impele-nos pela via da mundanidade para sermos mais importantes». E pode haver a desilusão, como aconteceu com os discípulos de Jesus que se «calaram primeiro por temor e depois por vergonha». O Papa definiu-a «santa vergonha!» e sugeriu que peçamos ao Senhor «sempre a graça de nos envergonharmos, quando nos encontramos nestas situações».

O critério de escolha para as nossas ações, diante de certas tentações, é explicado por Jesus no mesmo trecho evangélico: «Sentando-se, chamou os Doze e disse-lhes: Se alguém quer ser o primeiro, seja o último de todos». E apontando um menino, acrescentou: «Fazei como ele». Cristo, explicou o Papa, «inverte tudo. A glória e a cruz, a grandeza e o menino...».

Este, concluiu o Pontífice, é um trecho do Evangelho que «nos leva a rezar pela Igreja, por todos nós, para que o Senhor nos defenda das ambições, da mundanidade de nos sentirmos superiores aos outros». Que o Senhor «nos conceda a graça da vergonha, a santa vergonha, quando nos encontrarmos naquela situação», a graça de dizer: «Mas sou capaz de pensar assim? Quando vejo o meu Senhor na cruz, e quero usar o senhor para fazer carreira?». E, acrescentou, que «nos conceda a graça da simplicidade de um menino», de entender a importância do «caminho do serviço» e, no fim de uma vida de serviço, saber dizer: «Sou um servo inútil».