Papa recebe Aung San Suu Kyi: apoio pela contribuição para a democracia em Mianmar

2013-10-28 Rádio Vaticana

Cidade do Vaticano (RV) - O Papa Francisco reza por Mianmar e encoraja e aprecia a contribuição "à democracia e à paz" dada por Aung San Suu Kyi, recebida em audiência na manhã desta segunda-feira, no Vaticano.

Foi o que referiu aos jornalistas o diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, Pe. Federico Lombardi, que também expressou "grande sintonia" entre o Papa e "essa figura tão simbólica no mundo asiático".

Houve uma "sintonia fundamental" entre o Papa Francisco e a líder da oposição birmanesa, Aung San Suu Kyi, sobre temas que o Pontífice tem a peito, como "a cultura do encontro" e o diálogo inter-religioso, disse Pe. Lombardi, acrescentando ter sido um encontro de grande cordialidade entre o Papa e a Nobel da Paz (1991), que viveu anos e anos de restrição à liberdade pessoal devido sua atuação vivida de modo não-violento em defesa dos direitos humanos e da democracia. A audiência teve lugar na Biblioteca papal.

De fato, Pe. Lombardi referiu que o Santo Padre manifestou todo seu apreço pelo compromisso da líder da oposição birmanesa "em favor do desenvolvimento da democracia no país, assegurando o empenho da Igreja por esta causa, sem nenhum tipo de discriminação, porque a Igreja está a serviço de todos com as suas atividades caritativas".

O diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé recordou, ainda, que é conhecida a atenção do Papa Francisco pela Ásia e o desejo do Santo Padre de visitar aquele continente.

Após no domingo ter recebido a cidadania honorária de Roma, a ela conferida 19 anos atrás, esta segunda-feira, de fato, foi para San Suu Kyi o dia do encontro com o Papa.

"O Santo Padre me disse que emoções como ódio e medo diminuem a vida e o valor das pessoas. Devemos valorizar o amor e a compreensão para melhorar a vida dos povos", afirmou San Suu Kyi durante uma coletiva de imprensa com a ministra das Relações Exteriores da Itália, Emma Bonino falando da audiência com o Santo Padre.

A líder da oposição birmanesa, que nesta segunda-feira encontrou também os chefes de Governo e de Estado italianos, o Premier Enrico Letta, e o Presidente Giorgio Napolitano, se disse "comovida" com o acolhimento que recebeu na Itália.

"Faço votos de que vocês permaneçam ao nosso lado", auspiciou, recordando que para Mianmar se "tornar um país verdadeiramente democrático" é preciso "modificar a Constituição".

"Uma Constituição democrática não pode basear-se tendo em mente uma única pessoa", explicou ainda, relançando o apelo a uma emenda à Carta constitucional birmanesa que a impede de tornar-se presidente porque mãe de dois filhos estrangeiros. "É claro que esta Constituição foi escrita pensando em meu caso", acrescentou.

Aung San Suu Kyi, 67 anos, filha de um general birmanês protagonista da independência de seu país, viveu durante muitos anos no exterior, tendo estudado em renomadas escolas indianas e inglesas, e trabalhado em Nova York para as Nações Unidas, onde conheceu seu marido, com o qual teve dois filhos.

Tudo mudou em 1988, quando voltou à Birmânia para dar assistência à mãe enferma, e o Gal. Saw Maung instaurou o regime militar. San Suu Kyi, fortemente influenciada pelos ensinamentos não-violentos de Ghandi, fundou o partido do qual hoje é presidente, a Liga Nacional pela Democracia. Em 1990 a líder da oposição birmanesa venceu as eleições presidenciais, mas os militares anularam o pleito.

Até 2010 Aung San Suu Kyi sofreu restrições da sua liberdade pessoal, sendo inclusive obrigada à prisão domiciliar.

Após as eleições de 2010, o governo fez uma série de reformas voltadas para uma democracia liberal, uma economia mista e a reconciliação nacional. Além de restituir a liberdade à líder da oposição, outros 200 prisioneiros políticos foram libertados e em 2012 Aung San Suu Kyi conquistou uma cadeira no Parlamento birmanês.

Ao longo dos anos, tornou-se um ícone da luta não-violenta em defesa dos direitos humanos e da democracia, sendo agraciada em 1991 com o Prêmio Nobel da Paz, que pôde retirar somente em 2012.

Dias atrás, após 23 anos, pôde retirar o Prêmio Sakharov a ela atribuído pelo Parlamento Europeu, e neste domingo recebeu em Roma a cidadania honorária. "Precisamos de paz muito mais do que de outra coisa, e a paz nasce do coração", disse sorridente no Campidoglio – sede da Prefeitura de Roma –, onde recebeu a referida honorificência.

Por fim, ressaltamos que Mianmar (ex-Birmânia), situada no Sudeste Asiático, às margens do golfo de Bangala, é de religião predominantemente Budista. Os cristãos são cerca de 7,9% da população composta por 50 milhões de pessoas de diferentes etnias. Os católicos são 1,3%, enquanto cerca de três quartos dos cristãos são protestantes. (RL)