O que pensa um tíbio (15 de novembro de 2016)

PAPA FRANCISCO

MEDITAÇÕES MATUTINAS NA SANTA MISSA CELEBRADA
NA CAPELA DA CASA SANTA MARTA

O que pensa um tíbio

Terça-feira 15 de novembro de 2016

Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 47 de 24 de novembro de 2016

Foi o confronto com um Senhor «forte», que repreende severamente — mesmo se sempre por amor — que o Papa propôs na homilia. Foi a imagem sugerida pela liturgia, de Jesus «que está diante de nós», e nos repreende, porque nos ama ou para nos convidar ou fazer-se convidar».

É aquela repreensão que se encontra no livro do Apocalipse (3, 1-6.14-22) e que o Senhor dirige aos cristãos da Igreja de Filadélfia. Trata-se — explicou o Pontífice — do «exemplo de uma Igreja» mas que pode ser verificado «em toda a parte». De facto, pode-se aplicar a todos «os cristãos que não são nem frios nem quentes: são mornos. São águas tranquilas, sempre». Ao Senhor que os repreende, eles respondem: «Mas por que me repreendes, Senhor? Não sou malvado».

«Oxalá fosses malvado! Isto é pior. Estás morto». Com efeito, o Senhor usa palavras fortes: «Porque és água tranquila, não te moves, és morno, vou vomitar-te». Esta, observou, é a situação quando «a tepidez entra na Igreja, numa comunidade, numa família cristã» e ouve-se dizer: «Não, tudo está tranquilo, por aqui está tudo bem, somos crentes, praticamos boas ações»; quando, isto é, tudo está «engomado» e «sem consistência» e «com a primeira chuva desmancha-se». Mas, questionou-se, «o que pensa um morno» para merecer tanta dureza? Lê-se no trecho da Escritura: «pensa que é rico». De facto, sente-se seguro: «Sou rico, de nada necessito. Estou tranquilo». Isto é, é vítima da «tranquilidade que engana». Contudo, advertiu o Pontífice, «quando na alma de uma Igreja, de uma família, de uma comunidade, de uma pessoa, está sempre tudo tranquilo, Deus não está presente. Estejamos atentos para não caminhar assim na vida cristã». Com efeito, acrescentou o Papa parafraseando o trecho do Apocalipse: «Dizes: “sou rico”» mas «“não sabes que és infeliz? Miserável, pobre, cego e nu?”». Representam, comentou, «três boas palmadas para despertar a alma morna, adormecida na tepidez». E a quem reclama: «Mas nada faço de mal, estou tranquilo», podemos recordar: «Nem praticas o bem!».

A resposta do Senhor é dura, «parece um insulto»; mas ele «fá-lo por amor». De facto, depois lê-se: «Eu repreendo e educo aqueles que amo», acrescentando inclusive: «Aconselho-te que compres de mim ouro provado no fogo, para ficares rico». Ou seja, descobrir outra riqueza, «que Eu posso oferecer-te. Não a riqueza da alma que crês possuir porque és bom, praticas o bem, tudo tranquilo»; mas «a outra riqueza, aquela que vem de Deus, que carrega sempre uma cruz, provoca uma tempestade, carrega sempre alguma inquietação na alma».

O conselho seguinte é que compres «roupas alvas para te vestires, a fim de que não apareça a vergonha da tua nudez». De resto os mornos, explicou a propósito o Papa, «não se dão conta que estão nus, como na fábula do rei nu na qual foi uma criança quem lhe disse: “Mas o rei está nu!”». O Senhor sugere até que ele compre um colírio para «ungir os olhos, de modo que possas ver»: de facto — disse Francisco — os mornos «perdem a capacidade de contemplação, de ver as grandes e bonitas coisas de Deus».

Portanto, diante do morno o Senhor diz-lhe: «Reanima, pois, o teu zelo e arrepende-te!». Fá-lo para «nos ajudar a converter-nos». Mas Deus, prosseguiu o Pontífice, está presente também «de outro modo: para nos convidar». Lê-se ainda no Apocalipse: «Eis que estou à porta e bato: se alguém ouvir a minha voz e me abrir a porta, entrarei em sua casa e cearemos, eu com ele e ele comigo». É importante, esclareceu o Papa, «a capacidade de ouvir quando o Senhor bate à nossa porta porque deseja oferecer-nos algo de bom, quer entrar na nossa casa». Mas há cristãos «que não se dão conta quando o Senhor bate. Qualquer rumor é o mesmo para eles». E não percebem que o Senhor bate e diz: «Sou eu, não tenhas medo. Quero entrar, estar e cear contigo. Isto é, fazer festa, consolar-te. Não com a consolação da tepidez, que não serve; mas com a consolação da fecundidade, de fazer com que vás em frente, de dar a vida pelos outros».

Por fim, o Senhor quer também «ser convidado». Como no episódio de Zaqueu descrito no Evangelho de Lucas (19, 1-10): o publicano de Jericó «sente a curiosidade que vem da graça» e «foi semeada pelo Espírito Santo» e leva-o a dizer: «quero ver o Senhor». A iniciativa — advertiu — «vem do Espírito». Por isso o Senhor «levanta os olhos e diz: “vem, convida-me para ir à tua casa!”».

Portanto, Deus «tem sempre amor: tanto para nos corrigir como para nos convidar à ceia ou para ser convidado. Está presente para nos dizer: “Desperta”. “Abre”. “Desce”. É sempre Ele». Eis então o convite conclusivo, a fim de que cada cristão se questione: «Sei distinguir no meu coração quando o Senhor me diz “desperta”? “Abre”? E quando me diz “desce”?».