O ícone mais genial do século XX
Vi pela primeira vez Nossa Senhora de Lurdes quando era criança em casa de viticultores renanos. Os meus pais saboreavam na cozinha vinho para comprar, enquanto a filha dos proprietários, que tinha a minha idade, me mostrava os quartos no andar de cima. O quarto de dormir dos seus pais apresentava uma fresca e alegre imobilidade, os cobertores enormes bem estendidos, as almofadas separadas por uma subtil fenda como duas grandes orelhas de
coelho, enquanto sobre a cómoda estava ela, direita como uma princesa de gelo circundada pelo frio, estranhamente viva, com o seu rosto de boneca delicadamente pintado. A minha mãe sorriu com um pouco ironia quando lhe contei sobre aquela lindíssima figura que me tinha aparecido: era uma «santa de cómoda».
O sorriso irónico da minha mãe tinha-me feito compreender isto: no nosso ambiente, entre intelectuais, doutos, peritos de arte, Nossa Senhora de Lurdes não era levada a sério. Era kitsch. Contudo olhamos para um facto, ou seja, que em todo o século XX não houve uma criação artística tão clara, compreensível, capaz de falar além dos confins culturais, tão funcional em sentido litúrgico e identificável enquanto católica como Nossa Senhora de Lurdes. O seu anónimo criador teve a mesma genialidade do desenhador de Michey Mouse e de quem idealizou a marca da Coca Cola. Onde está Nossa Senhora de Lurdes está a Igreja católica. Face a tal intrínseca força qualquer juízo estético se reduz a uma insignificante confirmação de gosto pessoal.
É surpreendente: Nossa Senhora de Lurdes, um produto industrial, corresponde à visão que originou a iconografia cristã. E isto não se deve à criatividade de um artista, mas à visão de uma santa, que descreveu como, numa gruta, uma «branca senhora» veio ao seu encontro para se apresentar, em dialecto dos Pireneus, como «Imaculada Conceição»: não a concebida imaculada, mas um conceito abstracto em figura humana, a encarnação de uma palavra. Em seguida, um ou mais modelistas de uma fábrica de objectos devocionais, cujos nomes provavelmente ninguém conseguiria reencontrar, ouvindo a narração da pastorinha produziram uma estátua: verdadeiro ícone, verdadeira imagem da aparição, que desde então passou vezes infinitas para a esteira transportadora. Deveras achiropita, com as suas características não personalizadas, como uma boneca, semelhante a todos e a ninguém, como convém à primeira criatura da nova criação, à perfeita nova Eva.




