O hipócrita é sempre um adulador (6 de junho de 2017)

PAPA FRANCISCO

MEDITAÇÕES MATUTINAS NA SANTA MISSA CELEBRADA
NA CAPELA DA CASA SANTA MARTA

O hipócrita é sempre um adulador

Terça-feira, 6 de junho de 2017

Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 25 de 22 de junho de 2017

«Um cristão verdadeiro não pode ser hipócrita e um hipócrita não é um verdadeiro cristão»: contra a tentação das «duas caras», o Papa Francisco usou uma linguagem direta, sem equívocos, na missa durante a qual analisou o trecho do Evangelho de Marcos (12, 13-17) no qual «alguns fariseus e herodianos» procuram induzir Jesus em erro.

«No trecho do Evangelho — observou — há uma palavra que Jesus usa muito para qualificar os doutores da lei: “Mas ele conhecia a sua hipocrisia”: “hipócritas” é o termo que mais usa para os qualificar». Eles, explicou Francisco, são «hipócritas porque mostram uma realidade mas pensam outra». De facto, acrescentou, aludindo à etimologia grega da palavra, «falam, julgam, mas por detrás é outra coisa». Nada mais distante de Jesus: com efeito, a hipocrisia «não é a linguagem de Jesus. A hipocrisia não é a linguagem dos cristãos». É um dado absolutamente «claro». Contudo, se Jesus se preocupa em pôr em evidência esta caraterística, é bom compreendê-la profundamente e depois examinar «como procedem», como se comportam os hipócritas.

Antes de tudo, «o hipócrita é sempre um adulador, em graus maiores ou menores, mas é um adulador». Assim, por exemplo, dirigem-se a Jesus dizendo-lhe: «Mestre, sabemos que dizes a verdade e não sentes sujeição alguma porque não temes ninguém mas ensinas o caminho de Deus segundo a verdade». Isto é, utilizam «a adulação que enternece o coração e a vida». Portanto, «os hipócritas começam sempre com a adulação. E depois formulam uma pergunta». Das técnicas da adulação fazem parte também «não dizer uma verdade», «exagerar», «fazer crescer a vaidade». A este propósito, o Pontífice recordou um sacerdote — «que conheci há muitos anos, não aqui» — que «pobrezinho, aceitava todas as adulações que lhe faziam, era a sua fraqueza. E os companheiros diziam que ele mal tinha aprendido a liturgia», porque não compreendera bem o verdadeiro sentido da «incensação».

Portanto, continuou o Papa, «a adulação começa assim mas com más intenções»; compreende-se bem lendo o trecho evangélico: os fariseus, para pôr Jesus à prova, «adulam-no para que ele creia nisso e caia em erro». É a técnica do hipócrita: «mostra-te que te estima, exalta-te, a fim de alcançar a sua finalidade».

Depois, acrescentou Francisco, há um «segundo aspeto» a ser evidenciado que se encontra «no que faz Jesus». Diante do gesto do hipócrita que, com as suas «duas caras», formula uma questão justa mas «com uma intenção injusta» — perguntando: «É justo pagar a César, é justo?» — Jesus «conhecendo a sua hipocrisia, diz claramente: «Por que quereis pôr-me à prova, trazei-me uma moeda, quero vê-la». Eis o método de Jesus: «aos hipócritas e aos ideólogos responde sempre com a realidade». A realidade é assim, hipocrisia ou ideologia é totalmente o oposto».

Por conseguinte Jesus diz: «trazei-me uma moeda». De facto, quer mostrar «a realidade» e responder «com sabedoria»: «Dai a César o que é de César — a realidade era que a moeda reproduzia a imagem de César — e a Deus o que é de Deus».

Por fim, disse o Pontífice, é preciso evidenciar um «terceiro aspeto» relativo «à linguagem do hipócrita», ou seja, que «é a linguagem do engano, é a mesma linguagem da serpente a Eva, a mesma. Começa com a adulação: “Não... se comerdes isto sereis grandes, conhecereis tudo...”, para a destruir».

Com efeito, a hipocrisia, explicou o Papa, «destrói, mata, mata as pessoas, até arrebata a personalidade e a alma de uma pessoa. Mata as comunidades». E acrescentou: «Quando há hipócritas numa comunidade há também um grande perigo, um perigo terrível». Por isso «o Senhor Jesus disse-nos: “Seja o vosso falar sim sim, não não. O supérfluo procede do maligno”. Foi claro». E em relação a isto, recordou Francisco, «Tiago na sua Carta é mais vigoroso ainda: “O vosso sim seja sim e o vosso não seja não”».

Palavras claras que nos fazem compreender hoje «quantos danos» a hipocrisia causa à Igreja.

Quanto mal provocam «os cristãos que caem nesta atitude pecaminosa que mata». Porque, afirmou o Pontífice, «o hipócrita é capaz de matar uma comunidade. Enquanto fala docemente julga com brutalidade uma pessoa. O hipócrita é um assassino». Na conclusão, o Papa resumiu a sua reflexão recordando que a hipocrisia «começa com a adulação», que a ela só se responde «com a realidade», e que a hipocrisia usa «a mesma linguagem do diabo que semeia a língua bifurcada nas comunidades para as destruir». Portanto, sugeriu, «peçamos ao Senhor que nos guarde para não cairmos neste vício da hipocrisia, de disfarçar o comportamento para esconder as más intenções. Que o Senhor nos conceda esta graça: “Senhor, que eu nunca seja hipócrita, que saiba dizer a verdade e se não puder dizê-la, que me cale, mas nunca, nunca a hipocrisia”».