Nos passos de Charles de Foucauld (1º de dezembro de 2016)

PAPA FRANCISCO

MEDITAÇÕES MATUTINAS NA SANTA MISSA CELEBRADA
NA CAPELA DA CASA SANTA MARTA

Nos passos de Charles de Foucauld

Quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 49 de 8 de dezembro de 2016

Foi o testemunho concreto do beato Charles de Foucauld que o Papa Francisco indicou para solicitar os cristãos a «caminhar nas pegadas da pobreza, contemplação e serviço aos pobres». No final da missa o Pontífice quis recordar o religioso francês, no centenário do seu assassinato.

Charles de Foucauld, afirmou Francisco antes de conceder a bênção, foi «um homem que venceu muitas resistências e deu um testemunho que fez bem à Igreja». Por isso «peçamos que do céu interceda por nós e nos ajude» acrescentou, relançando assim o seu caminho muito atual para a divulgação do Evangelho. Precisamente «as resistências» que Foucauld soube vencer foram o fio condutor da reflexão feita pelo Pontífice a partir também do trecho evangélico de Mateus (7, 21.24-27) proposto pela liturgia. O Papa indicou em particular «três tipos de resistências escondidas», as mais «perigosas»: as «palavras vazias», as «palavras justificatórias» e as «palavras acusatórias».

«Nesta primeira semana do Advento — afirmou na homilia – peçamos sempre ao Senhor que nos purifique, nos prepare para o encontro com Ele». Em particular, «hoje, na oração da coleta, rezámos assim: “Desperta a tua potência, Senhor, e com grande força socorre os teus fiéis, a tua graça vença as resistências do pecado e acelere o momento da salvação”». Portanto, prosseguiu Francisco, «peçamos ao Senhor que nos ajude neste caminho do encontro, da salvação». Mas «há uma graça que pedimos que me fez refletir: “A tua graça vença as resistências do pecado”».

Com efeito, observou, «na vida cristã há sempre dificuldades e resistências para ir em frente: existem resistências abertas, que nascem da boa vontade». Precisamente como para Saulo que «resistia à graça sem saber e estava convicto de fazer a vontade de Deus». Depois «foi o próprio Jesus quem lhe disse: “Saulo, Saulo, tranquiliza-te, pára”». Porque «é difícil recalcitrar contra os aguilhões». Assim «Jesus vai ali e Saulo reconhece e converte-se». Aliás, acrescentou o Pontífice, «as resistências abertas são sadias, porque todos somos pecadores e é natural que se manifestem». E «são sadias, no sentido que são abertas à graça para se converter».

Ao contrário, são «mais perigosas — explicou — as resistências escondidas: as que estão escondidas, que não se veem». Mas «todos as temos». Sim, insistiu o Pontífice, «cada um de nós tem o próprio estilo de resistência escondida à graça: devemos procurá-lo, encontrá-lo e colocá-lo diante do Senhor, a fim de que Ele nos purifique». E é precisamente esta «resistência» da qual «Estêvão acusava os doutores da lei: “Vós e os vossos pais resistis sempre ao Espírito Santo”». Com efeito, aqueles doutores «davam a entender que procuravam a glória de Deus, mas por detrás havia uma resistência ao Espírito Santo». Certamente, formular aquela acusação «ao pobre Estêvão custou-lhe a vida, mas ele disse a verdade».

«Estas resistências escondidas, que todos temos», esclareceu ainda Francisco, têm uma «natureza» bem reconhecível pois «vêm sempre para deter um processo de conversão». É precisamente «um parar, não é um lutar contra; é estar parado, talvez sorrir, mas tu não passas», como um «resistir passivamente, de forma escondida». Aliás, «quando há um processo de mudança numa instituição, numa família» é possível reconhecer, justamente, «resistências» e é um bem, frisou Francisco. Com efeito, «se não existissem, esta realidade não seria de Deus: quando há estas resistências é o diabo que as semeia, para que o Senhor não avance».

«Mas quais são estas resistências escondidas?» foi a pergunta proposta pelo Papa, que sugeriu imediatamente algumas respostas. Começando pelas «resistências das palavras vazias, aquelas palavras» às quais o Senhor faz referência no Evangelho: «Nem todos os que dizem “Senhor, Senhor” entrarão no reino dos céus». E pode-se chegar a dizer: «Senhor, Senhor, tu me conheces, jantámos juntos...». E «Ele reitera muitas vezes no Evangelho: “Não, este não entra!”. Por isso — especificou Francisco — «as palavras não servem, as palavras não nos ajudam: são as palavras, as palavras vazias». Como dizer «Sim, sim, sim» mesmo se no fundo é «não, não, não». Mas outrossim «sempre o sim, o suave sim, para amenizar o mandamento do Senhor ou a voz do Espírito».

A este propósito, o Pontífice repropôs também «a parábola dos dois filhos, que o pai envia para a vinha». E «um diz: “Não, não irei!”». Mas «depois pensa: «Sim, vou, é papá”». Ao contrário, o outro filho responde: «”Sim pai, fique tranquilo. Irei”». Ao contrário «pensa “mas este velho não compreende as coisa novas” e não vai».

Portanto, evidenciou o Papa, o segundo filho «faz a resistência passiva» que consiste precisamente em «dizer sim, tudo sim, muito diplomaticamente», quando ao contrário «é não, não, não». Em síntese «muitas palavras — “sim, sim, sim mudaremos tudo, sim” — para não mudar nada». É exatamente o estilo do «gattopardismo espiritual», precisamente de quantos dizem «sim a tudo» quando, ao contrário, «é tudo não». E esta «é a resistência das palavras vazias».

«Depois há outra resistência — explicou o Pontífice — a das palavras justificatórias, mas que não nos justificam». É o caso de uma pessoa que «se justifica constantemente — “não, fiz isto por esta razão” — mas quando há muitas justificações não há o bom cheiro de Deus, há o mau cheiro do diabo». Na realidade, prosseguiu Francisco, «o cristão não precisa de se justificar: foi justificado pela palavra de Deus, a única que nos justifica». Ao contrário, eis o recorrer a argumentações como «não, eu fiz isto por este motivo...» típico daqueles que «têm sempre uma razão para opor». Ao contrário, «não se deve fazer isto para obter aquilo, olha este perigo...». Mas assim «não se pode seguir em frente, a graça não pode ir em frente: é uma resistência das palavras que procuram justificar a minha posição para não seguir o que o Senhor me indica».

E, ainda, «há uma terceira resistência das palavras: as palavras acusatórias». É caraterística de quantos «acusam os outros para não olhar para si mesmos». O Papa propôs o exemplo do fariseu no templo que diz: «Dou-te graças, Senhor, porque não sou como os outros, nem como aquele ali, sou justo diante de Ti». Esta é a atitude de quantos «acusam os outros, acusam aquele pobre publicano». Contudo, fazendo deste modo «resiste-se à graça» e, considerando-nos justos, não sentimos «a necessidade de mudar, de conversão».

«Mas as resistências não são apenas as grandes resistências históricas, a linha Maginot ou todas as que estudámos» advertiu Francisco. Estão «dentro do nosso coração, todos os dias». Há «a resistência à graça, o que é um bom sinal, porque indica que o Senhor está trabalhando em nós». E «devemos abandonar as resistências, para que a graça siga em frente». Com efeito, «a resistência procura sempre mudar o real no formal, esconder-se no formal e com as formalidades das palavras vazias, das palavras justificatórias, das palavras acusatórias e muitas outras, procura permanecer onde está e não se deixar levar em frente pelo Senhor». Porque, admitiu o Papa, «nem sempre é fácil, há sempre uma cruz: onde estiver o Senhor haverá uma cruz, pequena ou grande».

E é «a resistência à cruz, a resistência ao Senhor que nos leva à redenção». É «a resistência de Pedro: quando Jesus, depois de ter dito que ele teria sido a pedra da Igreja, começa e explicar-lhe que deverá sofrer, Pedro resiste. E diz: “Não, Senhor, isto nunca acontecerá!”». E «Jesus a Pedro, ao seu eleito, ao primeiro Papa, responde dizendo «vai-te embora satanás!”». Sim, porque Pedro «resistia à graça, resistia ao plano de Deus sobre a humanidade e sobre cada um de nós».

Nesta perspetiva o Pontífice convidou a «não ter medo quando cada um de nós se der conta que no coração há algumas resistências». Certamente, a atitude justa é «dizê-lo claramente ao Senhor: “Olha, Senhor, procuro cobrir isto, fazer isto e não deixar entrar a tua palavra”». E «dizer esta palavra tão bonita: “Senhor, com grande força, socorre-me; a tua graça vença as resistências do pecado”». Aliás, acrescentou Francisco, «as resistências são sempre um fruto do pecado original que carregamos». E é bonito «ter resistências». Ao contrário, é «feio usá-las como defesa da graça do Senhor». Em síntese «ter resistências é normal» concluiu o Papa, sugerindo que digamos: «Sou pecador, ajuda-me Senhor!». E convidando a preparar-se «com esta reflexão para o próximo Natal».