Nos olhos um sofrimento desmedido e pacato

2012-08-09 L’Osservatore Romano

Edith Stein,  com a deportação, submetida à última viagem para chegar àquele lugar, Auschwitz, onde reinava a engenharia do mal e que significava destruição e morte certa, foi reduzida a cinzas. A fúria nazista supunha ter cancelado juntamente com Israel também a memória e todos os traços da crueldade realizada, mas o «xeque-mate» virou-se contra os vencedores aparentes, e os sobreviventes souberam narrá-lo. Portanto, é possível reconstruir os Edith Stein estudanteúltimos dias de Edith Stein antes que desaparecesse no esquecimento e no silêncio. O mecanismo aberto da destruição não venceu, apesar da perfeita organização confirmada pelo telegrama secreto  assinado por Eichmann. No dia 20 de Julho de 1942 difundiu-se e foi lida nos Países Baixos a carta dos bispos holandeses que, com tons fortes e vibrantes, exortava a população a ajudar os perseguidos e defendia os judeus. Foi uma armadilha e transformou-se em oportunidade: os nazistas organizaram por represália um ataque no qual foram incluídos também os religiosos, 300 presos, de origem judaica. S. Romano afirma: «A sua [de Edith Stein] deportação a Auschwitz em Agosto de 1942 foi o resultado de um conflito difícil  entre as autoridades alemães e o clero holandês». Tirada à força do mosteiro, foi conduzida juntamente com a irmã ao Lager de Amersfoot, no qual o barracão que lhes foi designado já estava cheio de prisioneiros: «As sete religiosas formavam um grupo em si, uma pequena Comunidade: rezavam juntas, recitando o breviário e o Terço... Edith Stein espontaneamente era considerada por elas como superiora, dado que transparecia nela uma força sobrenatural». Trazia no seu hábito, como todos os outros, a estrela judaica, «era calma, não nervosa, ao contrário de Ir. Rosa. Na minha opinião, isto provinha do seu abandono a Deus. Em Maastricht obviamente também ela chorou, mas depois o contraste entre ela e Rosa ficou muito claro». Alguns amigos do mosteiro conseguiram alcançá-la: «...falou-se de pontapés e de tiros de fuzil. A Serva de Deus narrou-o com a máxima tranquilidade, sem agitação interior»; o jornalista Van Kempen encontrou diante de si «uma mulher espiritualmente grande e forte»; ele durante o seu colóquio fumou um cigarro e perguntou-lhe «se também ela queria um. Respondeu-me que «antes fumava e que outrora, quando era estudante, também dançava».

A possibilidade de fuga e salvação aconteceu-lhe muitas vezes na última década da sua vida: a oferta de uma cátedra universitária na América Latina, um refúgio com documentos falsos num  convento holandês longínquo, a ida à Palestina, onde teria desejado viver; rejeitou sempre em nome da Verdade, por ela tão procurada e amada. A sua prioresa confirma na deposição: «Teria podido desaparecer num convento numa ilha da Frísia, mas rejeitou  fazê-lo porque não queria fugir nem da perseguição injusta por vias oblíquas».

A última recusa de  se humilhar experimentou em Westerbork, perto de Assen, na Holanda norte-oriental a trinta quilómetros da fronteira alemã, campo construído pelos holandeses em 1939, com o consentimento da organizção judaica, para reagrupar refugiados judeus, alemães e apólidas,  que entraram ilegalmente no país e que se tornou a partir de 1 de Julho de 1942 «campo de trânsito de polícia»: para cem mil judeus holandeses, a última paragem antes de Auschwitz. Um funcionário holandês que prestava serviço no campo e leu nos seus olhos um sofrimento desmedido e pacato, testemunhou  depois durante o Processo de Beatificação: «Do seu ser silencioso emanava um forte influxo... Falava com segurança humilde, a ponto de comover quantos a ouviam. Uma conversa com ela... era como uma viagem a outro mundo. Naqueles momentos Westerbork já não existia... Disse-me: “Nunca teria acreditado que os homens pudessem ser assim e... que os meus irmãos tivessem que sofrer tanto!”. Quando já não  tinha dúvida de que deveria ser transportada para outro lugar, perguntei-lhe se podia ajudá-la e (procurar libertá-la); … de novo sorriu-me  suplicando-me que não. Por que fazer uma excepção para ela e para o seu grupo? Não seria  justo obter vantagem do facto de ser baptizada! Se não pudesse participar no destino dos outros a sua vida teria sido arruinada: “Não, isto não!”».

A carmelita não desmentiu a sua estatura interior, mas afirmou: «O mundo é formado por contrastes... Mas o fim não será formado por estes contrastes. Permanecerá só o grande amor. Como poderia ser diversamente?». Só no drama  vivo do campo Edith Stein viveu uma realidade que tinha subestimado: «Nunca soube realmente que os meus irmãos e irmãs tinham que sofrer assim... Todos os momentos rezo por eles. Se Deus escuta a minha oração? Ele certamente ouve a sua lamentação».

Cristiana Dobner