No dia do juízo (22 de novembro de 2016)

PAPA FRANCISCO

MEDITAÇÕES MATUTINAS NA SANTA MISSA CELEBRADA
NA CAPELA DA CASA SANTA MARTA

No dia do juízo

Terça-feira 22 de novembro de 2016

Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 48 de 1 de dezembro de 2016

O mundo «não gosta de pensar» nas realidades últimas, mas também elas fazem parte da existência humana. E se vivermos «a fidelidade ao Senhor», após a morte corporal «não teremos medo» de nos apresentarmos diante de Jesus para o seu juízo. Seguindo o caminho da «última semana do ano litúrgico», o Papa dedicou a homilia desta missa, a uma reflexão sobre o fim: «O fim do mundo e da história; o fim de cada um de nós, porque cada um de nós terá o seu fim».

Um tema que, talvez, «amargure o dia» de alguém porque, disse o Pontífice, «não gosta de pensar nisto», não quer dar-se conta de que «quando um de nós morrer, os anos passarão e depois de muito tempo quase ninguém se recordará». Mas, acrescentou, «esta é a verdade. É o que a Igreja nos diz: todos teremos um fim». Uma verdade com a qual somos chamados a confrontar-nos. A este respeito, o Papa revelou: «Tenho um elenco, uma agenda onde, quando morre uma pessoa — amiga, parente — escrevo o seu nome, e cada dia vejo aquela data, para quem é a celebração: “Mas este morreu há vinte anos! Como passou o tempo!” Este outro, há trinta anos, como passou o tempo!». Esta realidade comum a todos, disse, «obriga-nos a pensar no que deixamos, qual é o vestígio que a nossa vida deixou».

Vê-se isto na primeira leitura do dia, tirada do livro do Apocalipse (14, 14-19), na qual se fala de «colheita e vindima», mas também de «prova da qualidade do grão, da uva». Ou seja, explicou o Papa, «no fim haverá o juízo. Todos seremos julgados, cada um de nós será julgado». Por isso, «far-nos-á bem pensar: “Mas como será aquele dia em que estarei diante de Jesus”», quando o Senhor me pedir contas dos «talentos que me deu», ou do modo «como o meu coração recebeu a semente que aí caiu»? Recordando as «parábolas do reino de Deus», o Pontífice sugeriu algumas perguntas a fazer: «Como recebi a Palavra? Com o coração aberto? Fi-la germinar para o bem de todos, ou a escondi?». É um exame de consciência útil e justo, porque «todos seremos julgados» e cada um estará «diante de Jesus». Não sabemos o dia, mas isto «acontecerá».

Também num trecho tirado do Evangelho de Lucas (21, 5-11) há conselhos a tal respeito. E quem os dá é Jesus, que exorta: «Não vos deixeis enganar!». A qual engano se refere? É «o engano — explicou — da alienação, do afastamento»: o engano pelo qual «me distraio, não penso e vivo como se nunca tivesse que morrer». Mas, interrogou-se, «quando o Senhor vier como um relâmpago, como me encontrará? À espera, ou no meio de tantas alienações da vida, enganado por situações superficiais, sem transcendência?».

Portanto, estamos diante de uma verdadeira «chamada do Senhor, a pensar seriamente no fim: no meu fim, no juízo, no meu juízo». A propósito, o Papa recordou que «quando era criança», quando ia «ao catecismo», eram ensinadas «quatro coisas: morte, juízo, inferno ou glória».

Alguém poderia dizer: «Padre, isto assusta-nos». Mas, respondeu: «É a verdade. Pois se não cuidares do coração, para que o Senhor esteja contigo, e viveres sempre longe do Senhor, talvez haja o perigo de continuar assim, afastado do Senhor por toda a eternidade. Isto é muito triste!».

Eis porque, concluiu, «hoje nos fará bem pensar nisto: como será o meu fim? Como será, quando eu estiver diante do Senhor?». E para ir ao encontro de quantos poderiam ficar assustados ou tristes com esta reflexão, o Papa citou o trecho da aclamação ao Evangelho, tirado do Apocalipse (2, 10): «Sê fiel até à morte — oráculo do Senhor — e dar-te-ei a coroa da vida». Eis a solução para os nossos receios: «A fidelidade ao Senhor: Ele não desilude». E «se cada um de nós for fiel ao Senhor, quando chegar a morte diremos como Francisco: “Vem, irmã morte”. Ela não nos assusta». Assim, no dia do juízo «fitaremos o Senhor» e poderemos dizer: «Senhor, cometi muitos pecados, mas procurei ser fiel». E dado que «o Senhor é bom», assegurou o Pontífice, «não teremos medo».