No abismo do mistério (24 de outubro de 2017)

PAPA FRANCISCO

MEDITAÇÕES MATUTINAS NA SANTA MISSA CELEBRADA
NA CAPELA DA CASA SANTA MARTA

No abismo do mistério

Terça-feira, 24 de outubro de 2017

Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 43 de 26 de outubro de 2017

«Entrar no mistério de Jesus» olhando para o Crucifixo e assim «deixar-se abraçar» pelo «abismo» da sua misericórdia. No convite feito pelo Papa Francisco durante a missa há a indicação de um «caminho» para cada cristão: um itinerário rumo ao verdadeiro «centro» da própria vida, no qual desaparece toda a palavra e só permanece a contemplação do amor daquele que «deu a vida» pela salvação do homem.

A meditação do Pontífice inspirou-se na primeira leitura do dia, um excerto da Carta aos Romanos (5, 12.15.17-19.20-21) no qual parece quase que Paulo não consegue «exprimir o que quer dizer». É um trecho no qual o apóstolo utiliza uma série de «contraposições»: cinco vezes fala de «um homem» e de «outro homem», insere os conceitos de «pecado, queda, desobediência, graça, justiça, perdão» e ainda contrapõe «abundância e superabundância», põe a «justiça» ao lado do «perdão». Ao procurar levar o leitor «a entender algo», explicou o Papa, o apóstolo usa um método que não foi «estudado» mas «é precisamente o que lhe sai do coração». Sobretudo Paulo «sente que é impotente» para «explicar aquilo que gostaria de explicar».

Na realidade, disse Francisco, por detrás deste discurso «estão a história da salvação, a criação, a história do pecado, da queda do homem. Está a “recriação”, isto é a redenção que a Igreja afirma ser mais maravilhosa que a criação, mais poderosa». E a linguagem usada por Paulo justifica-se com o facto de que, efetivamente, «não há palavras suficientes para explicar Cristo». Portanto ele, advertindo esta impossibilidade, «impele-nos, leva-nos quase até ao abismo e impele-nos; ainda mais, empurra-nos para que caiamos no mistério». No «mistério de Cristo».

Por conseguinte, disse o Pontífice, todas «estas palavras, estas contraposições, estas descrições são apenas passagens no caminho para nos imergir no mistério de Cristo». Um mistério que «é tão superabundante, tão forte, generoso, inexplicável, que não se pode compreender com argumentações». As argumentações, acrescentou, «levam-te até ali, mas tu deves abismar-te no mistério para compreender quem é Jesus Cristo para ti, quem é Jesus Cristo para mim, quem é Jesus Cristo para nós».

A síntese, explicou o Papa, é a que Paulo propõe noutro trecho no qual, olhando para Jesus, afirma: «“Amou-me e entregou-se a si mesmo por mim”, e não acha outra explicação». Escreve o apóstolo: «Dificilmente se encontra entre nós alguém que quer dar a vida por uma pessoa bondosa, uma pessoa justa: é difícil. Mas existem. Porém alguém que quer dar a vida por um criminoso, por um pecador como eu? Só Jesus Cristo». Assim, disse Francisco, entra-se no mistério de Cristo. Mesmo se contudo «não é fácil: é uma graça».

Tudo isto, explicou o Papa, foi compreendido pelos santos. E «não só os santos canonizados» mas «os muitos santos escondidos na vida diária. Muita gente humilde, simples que põe a sua esperança só no Senhor. Entraram no mistério de Jesus Cristo». Aquele mistério que São Paulo descreve como uma «loucura» e do qual afirma também: «Se eu devesse vangloriar-me de algo não me vangloriaria que estudei na sinagoga com Gamaliel, nem daquele outro facto, da minha família, do meu sangue nobre: não, não me vangloriarei disto. Posso vangloriar-me apenas de duas coisas: dos meus pecados e de Jesus Cristo crucificado». Mais uma vez uma contraposição «nos leva ao mistério de Jesus», isto é, «ele, crucificado, em diálogo com os meus pecados».

Trata-se contudo, continuou o Pontífice, de um caminho difícil, porque «nós não estamos acostumados a entrar no mistério. Quando vamos à missa, sim, rezamos é verdade; sabemos que Jesus vem; inclusive, sabemos que ele está na palavra de Deus, que ele vem na comunidade». Mas «isto não é suficiente». De facto «entrar no mistério de Jesus Cristo é mais: é deixar-se cair naquele abismo de misericórdia no qual não há palavras: só o abraço do amor. O amor que o levou até à morte por nós».

Para fazer compreender melhor tal conceito, o Papa utilizou o exemplo do sacramento da reconciliação: «Quando nos vamos confessar porque temos pecados», o que fazemos? «Vamos, dizemos os pecados ao confessor e ficamos tranquilos e contentes». Mas «se fizermos assim, não entrámos no mistério de Jesus Cristo». Pelo contrário «se eu for ter com Jesus Cristo, vou entrar no mistério de Jesus Cristo, naquele abraço de perdão do qual Paulo fala; na gratuitidade do perdão».

Eis então uma pergunta para cada cristão: «“Quem é Jesus para ti?” — “É o Filho de Deus, a segunda pessoa da Trindade”. Podemos recitar o Credo todo, o catecismo inteiro, é verdade». Mas, afirmou o Papa, este ainda é um ponto no qual não se consegue exprimir o «centro do mistério de Jesus Cristo», que é: «Amou-me e entregou-se por mim». E é precisamente este o «trabalho que nós cristãos devemos fazer». Portanto: «a compreensão do mistério de Jesus Cristo não vem do estudo, é uma graça. Compreende-se Jesus Cristo gratuitamente. Só se entende Jesus Cristo por pura graça».

Uma ajuda, disse Francisco, pode chegar da «piedade cristã», em particular do exercício da via-sacra: «É caminhar com Jesus no momento em que ele nos dá o abraço de perdão e de paz». E é «bonito percorrer a via-sacra», talvez, «em casa, pensando nos momentos da paixão do Senhor». De resto, «também os grandes santos aconselhavam a começar sempre a vida espiritual com este encontro com o mistério de Jesus Crucificado». E «Santa Teresa recomendava às suas monjas: para chegar à oração de contemplação, à oração elevada que ela praticava, começava com a meditação da paixão do Senhor».

Diante de Cristo na cruz, sugeriu o Pontífice, é preciso «começar e pensar. E assim, procurar compreender com o coração que “me amou e se entregou a si mesmo por mim”». Que é precisamente o que Paulo nos quer explicar neste texto tão difícil, cheio de contradições: deseja levar-nos ao abismo do mistério de Jesus Cristo». Porque cada um poderia dizer: «Sou um bom cristão, vou à missa aos domingos, pratico obras de misericórdia, recito as orações, educo bem os meus filhos», e isto «está muito bem». Mas é preciso ir além: «Tu fazes tudo isto: mas entraste no mistério de Jesus Cristo?», isto é «aquele que não podes controlar»?

Eis então que o Papa aconselha a rezar a São Paulo — uma «verdadeira testemunha que encontrou Jesus Cristo e se deixou encontrar por ele e entrou no mistério de Jesus Cristo» — a fim de que «nos conceda a graça de entrar no mistério de Jesus Cristo que nos amou, se entregou à morte por nós, que nos justificou diante de Deus, que perdoou todos os pecados, até as raízes do pecado: entrar no mistério do Senhor». E, concluiu, «sempre que olharmos para Cristo Crucificado, pensemos que este é um ícone do maior mistério da criação, de tudo: Cristo crucificado, centro da história, centro da minha vida».