Não às colonizações ideológicas (21 de novembro de 2017)

PAPA FRANCISCO

MEDITAÇÕES MATUTINAS NA SANTA MISSA CELEBRADA
NA CAPELA DA CASA SANTA MARTA

Não às colonizações ideológicas

Terça-feira, 21 de novembro de 2017

Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 48 de 30 de novembro de 2017

O cristão deve dar o seu testemunho diante das «colonizações ideológicas e culturais» que soam como verdadeiras «blasfémias» e suscitam «perseguições» furiosas. Introduzindo más «novidades», chegando até a considerar normal «matar as crianças» ou perpetrar «genocídios» para «anular as diferenças», procurando fazer «tábula rasa» de Deus com a ideia de ser «modernos» e ao passo com os tempos. Como exemplo concreto para responder às «colonizações culturais e espirituais que nos são propostas» o Papa apresentou o testemunho de Eleazar, sugerido pela liturgia.

«Na primeira leitura — com efeito, observou imediatamente o Pontífice referindo-se ao trecho tirado do segundo livro dos Macabeus (6, 18-31) — ouvimos o martírio de um homem que foi condenado à morte por fidelidade a Deus, à lei, numa perseguição: há muitos motivos de uma perseguição mas podemos citar os três principais».

Antes de mais há «uma perseguição apenas religiosa: vou contra a tua fé porque a minha fé diz não e com o poder que tenho exerço a perseguição» explicou Francisco. «Outra perseguição, outro motivo pode ser religioso, cultural, histórico, político, religioso-político, quando se mistura o religioso com o político», acrescentou, exortando a pensar «na guerra dos trinta anos, na noite de São Bartolomeu: guerras religiosas ou políticas». «Outro motivo de perseguição — disse o Papa — é puramente cultural: chega uma nova cultura que quer fazer tudo novo e faz tábula rasa das tradições, da história, inclusive da religião de um povo: o que acontece na leitura de hoje, o martírio de Eleazar é típico deste estilo cultural».

«Ontem teve início a narração desta perseguição cultural» explicou Francisco referindo-se aos excertos bíblicos propostos pela liturgia. «Alguns — continuou — vendo o poder e também a beleza magnífica de Antíoco Epifânio, e a cultura que vinha daquela parte, disseram: “Vamos e façamos aliança com as nações que estão ao nosso redor, são modernas, elas têm uma modernidade maior, são atuais; nós continuamos com as nossas tradições, que não servem para nada».

A tal propósito o Pontífice quis repetir precisamente as palavras da Escritura: «Pareceu bom aos seus olhos este raciocínio e alguns do povo tomaram a iniciativa, foram ter com o rei que lhes ofereceu a faculdade de introduzir as instituições pagãs das nações». E assim, acrescentou Francisco, não pediram para «introduzir as ideias ou os deuses, não: as instituições, isto é, este povo que nascera, crescera sob a lei do Senhor, sob o amor do Senhor, através dos seus dirigentes, faz entrar novas instituições, nova cultura que fazem tábula rasa de tudo: cultura, religião, lei, tudo. Tudo é novo».

«A “modernidade” é uma verdadeira colonização cultural, uma autêntica colonização ideológica», afirmou o Papa. E «deste modo quer impor ao povo de Israel este hábito único, tudo se faz assim, não há liberdade para outras coisas». Mas «alguns aceitaram porque parecia algo bom: “Não, é verdade, devemos ser como os outros”». E essas pessoas «que chegavam às novas instituições — afirmou Francisco — manda embora este, elimina as tradições e o povo começa a viver de modo diverso».

Eis que «para defender a história, a fidelidade do povo, para defender as tradições verdadeiras, as boas tradições do povo, fazem-se algumas resistências». A primeira leitura de hoje, explicou o Pontífice, narra-nos que «Eleazar não quer. Era um homem digno, muito respeitado e não aceita aquilo». E como ele «muitos outros, no livro dos Macabeus são narradas as histórias destes mártires, destes heróis».

«Assim vai em frente sempre — prosseguiu — uma perseguição nascida de uma colonização cultural, ideológica, que destrói, torna tudo igual, não é capaz de tolerar as diferenças». Em particular, afirmou Francisco «há uma palavra-chave na leitura de ontem — tirada do primeiro livro dos Macabeus — quando começa esta narração: “Naqueles dias brotou uma raiz perversa”», isto é «Antíoco Epifânio». Portanto, insistiu o Papa, «arranca-se a raiz do povo de Israel, que é substituída por esta raiz, qualificada como perversa porque fará crescer no povo de Deus certos hábitos novos, pagãos, mundanos e crescer com o poder, com o domínio». Este é «o caminho das colonizações culturais que acabam por perseguir também os crentes».

De resto, afirmou o Pontífice, «não é preciso ir muito longe para ver alguns exemplos: pensemos nos genocídios do século passado, que eram culturais, novos: “Todos iguais quem não tem o sangue puro, fora... Todos iguais, não há lugar para as diferenças, não há lugar para os outros nem para Deus”».

Eis a «raiz perversa», disse o Papa. «Diante destas colonizações culturais que escondem a perversidade de uma raiz ideológica — observou — Eleazar, ele mesmo, faz-se raiz: é interessante, Eleazar morre pensando nos jovens». De facto, disse Francisco, «por três vezes, no final da narração de hoje, fala-se dos jovens». Eleazar afirma: «Portanto, abandonando agora como forte esta vida, mostrar-me-ei digno da minha idade e deixarei aos jovens um exemplo nobre para que saibam enfrentar a morte com prontidão e nobreza». E «outras duas vezes fala dos jovens». Resumindo «Eleazar, o mártir, aquele que dá a vida, por amor a Deus e à lei, faz-se raiz para o futuro: isto é, dá vida, faz crescer o povo e diante daquela raiz perversa que nasceu e provocou esta colonização ideológica e cultural, há esta outra raiz que dá a própria vida para fazer crescer o futuro».

«É verdade, aquilo que chegou do reino de Antíoco era uma novidade», acrescentou o Papa, convidando a questionarmo-nos se «as novidades são todas más, todas». A resposta é «não». De resto «o Evangelho é uma novidade, Jesus é uma novidade, é a novidade de Deus». Por conseguinte, «é preciso discernir as novidades. Esta novidade é do Senhor, vem do Espírito Santo, da raiz de Deus ou vem de uma raiz perversa?». E assim «antes, sim, era pecado, não se podia matar as crianças; mas hoje pode, não tem problema, é uma novidade perversa».

«Ontem as diferenças eram claras, como Deus as fez, a criação era respeitada; hoje somos mais modernos: fazes, compreendes, as coisas não são tão diferentes e são misturadas». E «esta é a raiz perversa: a novidade de Deus nunca faz uma mistura, uma negociação: é vida, vai em frente, é raiz boa, faz crescer, olha para o futuro».

Ao contrário, afirmou o Papa «as colonizações ideológicas e culturais olham só para o presente, renegam o passado e não olham para o futuro: vivem no momento, não no tempo, e por isso nada nos podem prometer». E «com este comportamento de tornar todos iguais e cancelar as diferenças cometem o pecado horrendo de blasfémia contra Deus criador». Portanto, recordou Francisco, «todas as vezes que aceitamos uma colonização cultural e ideológica pecamos contra Deus criador porque se pretende mudar a criação que Ele fez».

Contudo, advertiu o Pontífice, «contra este facto que aconteceu muitas vezes ao longo da história há um só remédio: o testemunho, isto é o martírio». Há alguns como Eleazar que dão «o testemunho da vida, pensando no futuro, na herança que deixarei com o meu exemplo. Na maioria o testemunho de vida: vivo assim, sim, dialogo com os que não pensam como eu, mas o meu testemunho é assim, segundo a lei de Deus, segundo o que Deus me concedeu».

Francisco sugeriu que olhemos para o exemplo de Eleazar: «Naquele momento ele não pensou: “deixo dinheiro a este, deixo isto” não, pensou nos jovens, no futuro, na herança do próprio testemunho, pensou que aquele testemunho teria sido para os jovens uma promessa de fecundidade e diante da raiz perversa ele mesmo se fez raiz para dar vida aos outros». Portanto, concluiu o Pontífice, «este exemplo nos ajude talvez nos momentos de dúvida, diante das colonizações culturais e espirituais que nos são propostas».