Elogio a Constantino, até quando lançava dados

2012-08-09 L’Osservatore Romano

Na presença de Constantino, por volta do fim de Julho de 310,  foi pronunciado em Trier (Augusta Treverorum) um longo panegírico por ocasião do aniversário da fundação da cidade, sede imperial e capital da Gália Bélica. O autor da alocução solene, pelo menos até hoje,  não tem um nome, embora a sua actividade  sem dúvida possa inserir-se no círculo cultural de cidades gálicas, como Trier, Autun, Bordeaux, sedes de renomadas escolas de retórica, além de departamentos da administração imperial.Tabuleiro de jogo (Abadia de São Matias, Trier,  início do séc. IV) Entre os outros officia destes âmbitos curiais e culturais certamente não secundário  era o da composição de panegíricos dirigidos ao imperador. Na colectânea dos doze descobertos até hoje, cinco são dirigidos a Constantino, que elegeu como sua residência oficial Trier, onde – com excepção de alguns intervalos – permaneceu continuamente por quase  uma década (aprox. 306-317). Naquele pronunciado em 310 – o sétimo da série – a fisionomia do imperador é desenhada como de um comandante invencível que, interrompida a ferocidade bárbara (barbarorum immanitas) protege, consolida  e torna seguro o confim sagrado do império. No mundo socialmente variado dos frequentadores do espectáculo circense, o eco do evento vitorioso tranquilizador estendia-se e sedimentava-se em amplas camadas da população, até se depositar no ambiente dos jogadores de dados habituais  e de semelhantes passatempos, onde a contiguidade com o mundo do circo devia ser quase natural. O exercício desses jogos previa um apoio material, as chamadas tabulae lusoriae – precisamente tabuleiros de jogos de mármore de forma rectangular – documentadas em grande número sobretudo em Roma, em Óstia, no Lácio, mas também na África e na Gália.

Este singular corpus epigráfico – constituído por duzentos exemplares – concentra-se nos séculos centrais da antiguidade tardia e actualmente é acessível numa colectânea editorial, baseada em fichas manuscritas pelo jesuíta Antonio Ferrua, Tavole lusorie epigrafiche (Catalogo delle schede manoscritte, introduzione e indici, por Maria Busia, Cidade do Vaticano, Pontifício instituto de arqueologia cristã, 2001). Alguns desses tabuleiros foram descobertos também em Trier (Tabulae lusoriae, nn. 1, 54, 55) e entre esses o proveniente da necrópole de São Matias, ainda perfeitamente íntegro, propõe na sua parte gravada um eco bem definido dos eventos bélicos de 306, recordados no VII panegírico pronunciado diante de Constantino. De facto, nele lêem-se seis palavras, cada uma de seis letras, dispostas simetricamente – três de cada lado – nas extremidades  curtas da lastra. No total, trinta e seis quadros alfabéticos, funcionais não só ao exercício do jogo, mas também – como em muitíssimos outros exemplares – à comunicação de uma mensagem definitiva que, mesmo encontrando um objectivo limite expressivo no número prefixado das letras para cada palavra, contudo consegue conservar uma transparência de conteúdos suficiente, como emerge precisamente na sequência Virtus imperi / hostes vincti / ludant romani (Tabulae lusoriae, n. 1). Aqui é evidente a referência a um evento bélico, que se realizou no século IV numa área não distante do lugar de descoberta da lastra e portanto nos arredores de Trier.

A celebração da vitória, nesta como noutras circunstâncias e lugares, previa a exibição dos prisioneiros de guerra  e dos seus caudilhos no anfiteatro, e eles eram destinados  a ser executados  numa luta ímpar com animais ferozes, «em tal número que até a crueldade das feras cansava». Desta forma, pode-se intuir facilmente que para os leitores habituais desses escritos lusórios – isto é os jogadores – a oposição virtus imperi / hostes vincti se prestava a um duplo nível de leitura, referida contextualmente quer ao dado real do evento bélico quer às dinâmicas ligadas à competição lúdica, que evidentemente só podia prever um vencedor e um perdedor: Medalhão prateado, cunhado em Pavia no ano 315  Busto de Constantino com cristograma no elmopor um lado o jogador hábil (lusor velox), por outro o incapaz (idiota). Também em Roma duas tabulae lusoriae se referem a vitórias contra os bárbaros obtidas em campo, claramente sentidas e apresentadas como libertadoras de  um perigo iminente para a estabilidade do império. A primeira, proveniente da catacumba dos santos Marcos e Marcelino, recorda explicitamente a vitória de 296 contra bretões e partos, com a sequência Parthi occisi / Britto victus / ludite romani, «mortos os partos, vencido o bretão, festejai romanos» (Tabulae lusoriae, n. 2); a outra, encontrada na catacumba de Priscila, faz referência de maneira genérica a uma vitória bélica não definida com exactidão, embora se possa circunscrevê-la no decurso do século IV (Tabulae lusoriae, n. 3). Que o mundo dos espectáculos e a prática dos jogos com as tabulae lusoriae – e na sua dimensão competitiva e pelo menos formalmente agonística – desenvolvessem no imaginário colectivo uma verdadeira contiguidade mental e material, está documentado nas mesmas inscrições nos tabuleiros de jogo.

Carlo Carletti