Ecumenismo em acção

2012-07-06 L’Osservatore Romano

O poeta e ensaísta  inglês Joseph Addison (1672-1719), em A Song for St Cecilia's Day de 1694, definia a música: the greatest good that mortals know / And all of heaven we have below («o maior bem que os mortais conhecem. E tudo o que do paraíso nós temos aqui em baixo»). Tivemos uma demonstração prática desta afirmação na semana passada, quando o coro da Abadia de Westminster, cantando sozinho ou com o coro da Capela Sistina, nos ofereceu «tudo o que do paraíso temos» através das funções e concertos realizados em Santa Maria Maior, na Capela Sistina, na basílica de São Pedro e em Santa Maria «sopra Minerva».

Há mais de um milénio  a Westminster Abbey é uma igreja cristã. Não obstante o nome, que recorda a comunidade monástica beneditina original, foi instituída formalmente, com acto régio, como «igreja colegial de São Pedro», dedicada, como a basílica de São Pedro em Roma, ao primeiro dos apóstolos.

Fora da jurisdição episcopal, é uma grande igreja no centro da nação. Conserva a capela de santo Eduardo, o Confessor (que reinou de 1043 a 1066) e é o lugar de repouso de muitos outros soberanos ingleses, incluídos  o seu grande benfeitor Henrique III (1216-1272), as suas irmãs separadas pela fé religiosa, Maria I (1553-1558) e Isabel I (1558-1603 e Maria, rainha da Escócia, prima católica de Isabel I, executada em 1587 devido à sua conspiração para derrubar a instituição anglicana de Isabel. Ali foi sepultado Newton, Dickens, Darwin e Chaucer, e os compositores Händel e Purcell. A abadia é mais do que um santuário nacional: é um santuário da vida nacional.

No seu centro está o coro, instituído no século XIV como fundação coral de meninos e homens, responsável pelas funções corais quotidianas da abadia e com a tarefa de cantar nos numerosos eventos reais, estatais e nacionais que ali se realizavam. Foi este o coro que animou a função da oração da noite celebrada na presença do Papa Bento XVI em Setembro de 2010. E foi o Papa Bento XVI quem pediu para que o coro viesse a Roma, neste ano em que se celebra o cinquentenário do concílio Vaticano II, para cantar na sua presença por ocasião das celebrações da solenidade dos santos Pedro e Paulo. Nenhum outro coro, muito menos um coro anglicano,  jamais cantou com o coro da Capela Sistina nesta missa papal importantíssima.

Esta visita, a convite do Papa, foi mais do que um símbolo ecuménico. Foi ecumenismo em acção. The beauty of holiness (Sl 96, 8), a cultura de celebrar Deus através da beleza é partilhada pela tradição católica romana e pela anglicana.

Depois da função da oração da noite em Santa Maria «sopra Minerva», David Richardson, o representante em Roma do arcebispo de Canterbury, recordou as palavras do arcebispo Archibald Tait (1811-1882): «a música une lá onde os sermões dividem». A força unificadora da música foi experimentada de maneira mais intensa durante a missa pontifícia pelos santos Pedro e Paulo, no momento solene da Eucaristia. Enquanto o Papa Bento XVI distribuía a comunhão, o coro da Westminster Abbey executava o grande e sereno cântico da Ave Verum Corpus de William Byrd (1540-1623), certamente um dos melhores compositores ingleses. Viveu e trabalhou num tempo convulso sob o ponto de vista religioso, e compôs tanto para o rito reformado inglês como para o romano. Era um cavalheiro da Capela Real. Mas por toda a vida permaneceu um católico leal, compondo acompanhamentos para a missa latina num tempo em que, depois da excomunhão da rainha Isabel por parte do Papa Pio V, a celebração do rito  romano na Inglaterra era punível com a condenação à morte por traição. E contudo foi precisamente a música de Byrd, cantada de maneira excelente por um coro anglicano durante uma missa papal, que uniu Roma e Canterbury, o Reino Unido e a Santa Sé.

Desejo que  possam  haver muitos outros momentos semelhantes. O cardeal Tarcisio Bertone, secretário de Estado, e o decano de Westminster, John Hall, depois do concerto comum na Capela Sistina a 28 de Junho, executado pelos coros da Capela Sistina e Westminster Abbey, concordaram que esta extraordinária harmonia musical deve ser o caminho para proceder nas relações ecuménicas. A nossa música deriva de uma raiz comum, enriquecida no seu desenvolvimento, até ao pleno amadurecimento, a partir de tradições distintas, mas complementares, que hoje podemos apreciar. Com as palavras do Salmo 46, traduzido em música na antífona extraordinária de Orlando Gibbons, cantada na semana passada em Santa Maria Maior e em Santa Maria «sopra Minerva»: O clap your hands together, all ye people: O sing unto God with the voice of melody.

Nigel Marcus Baker, Embaixador da Grã-Bretanha junto da Santa Sé