E se se tornasse uma super-partícula de Deus?
Em 1993, o então ministro britânico da ciência, William Waldgrave, prometeu uma garrafa de champanhe para quem fosse capaz de lhe explicar, numa única página dactilografa, a natureza do bosão de Higgs e a importância da sua eventual descoberta.
Nos últimos dias não haviam garrafas em sorteio, mas foram dezenas os artigos que se disputaram procurando explicar ao leitor comum, com palavras simples e fazendo comparações com a vida quotidiana, o que é este célebre bosão. Estando do lado do leitor comum e imaginando as dúvidas que lhe podem ter surgido sobre a própria capacidade de entendimento, gostaria de tranquilizá-lo dizendo-lhe que o esforço para compreender com poucas palavras a natureza da última partícula descoberta pelos físicos do Cern, é com efeito impossível. Os exemplos que foram concebidos para nos fazer pelo menos entrever a relevância fundamental da descoberta, ou seja, da verificação da existência do bosão de Higgs, são muito engenhosos e admiráveis.
Porém, talvez tenham uma perspectiva limitada desde o início (sempre sob o ponto de vista do leitor comum): todos indistintamente se esforçam para nos fazer compreender apenas a «física» do bosão, o modo através do qual o «campo» de Higgs interage com as outras partículas elementares determinando a sua natureza, especialmente a massa de cada uma delas. Um aspecto sem dúvida interessante e fascinante para quem tem um conhecimento mínimo da física moderna, mas que deixará perplexos ou desinteressados todos os outros.
Na minha opinião, é necessário elevar o nosso olhar para o âmbito puramente físico e científico, mesmo se isso significa algumas imprecisões e simplificações inevitáveis, levando-o para um nível mais «filosófico», não no sentido académico, porque as coisas poderiam piorar, mas no sentido de aproximar o problema das questões essenciais da nossa existência no mundo. Na verdade, além dos aspectos técnicos, o debate sobre a existência ou não do bosão de Higgs, reconduz-nos à questão fundamental e histórica sobre a natureza do espaço, em particular do espaço vazio e se este é identificável com o «nada».
Portanto, esperamos que o clamor e o interesse geral despertados pelo sucesso da experiência crucial Lhc, incentive todos a reflectir, ampliando os próprios horizontes culturais.
Se o bosão de Higgs, além de actuar sobre as partículas elementares, conseguisse aproximar o pensamento científico do humanístico, transformar-se-ia realmente numa «super-partícula de Deus»!




