Crônicas do Japão: Budismo e Xintoísmo - duas religiões em uma

2012-07-04 Rádio Vaticana



Tóquio (RV*) - Estimados ouvintes do Programa Brasileiro da Rádio Vaticano, recebam uma saudação cordial do longínquo Japão, Terra onde o Sol Nasce.

Inúmeras perguntas me foram feitas, pessoalmente ou através da internet, sobre o número de seguidores das principais religiões do Japão. À pergunta, quantos são os budistas eu responderia 127 milhões; quantos são os xintoístas? 127 milhões; quantos são os japoneses? Também 127 milhões. Parece que não respondi a pergunta, verdade? Não fosse a conjuntura japonesa de 1549 e as pretensões dos europeus da época, talvez, também os cristãos poderiam ser 127 milhões neste arquipélago.

Infelizmente, a história tem acertos e erros que determinam o desenvolvimento das coisas inclusive do Cristianismo. O fato é que na história das religiões nos deparamos com atitudes e medidas exclusivistas em todas elas, cada uma apresentando-se como a absoluta, menos entre as duas religiões dos japoneses, o Xintoísmo e o Budismo. A sincronia entre as duas é ainda mais chocante ao levar em conta as diferenças entre ambas.

O Xintoísmo é a religião nascida no Japão. Surgiu de forma espontânea, sem um fundador, baseada na beleza natural do Japão, tentando explicar as origens das ilhas e dos japoneses. Assume que em cada coisa existe um deus, quase que uma aura. O estado natural do universo é uma harmonia na qual os elementos divinos, natural e humano estão intimamente relacionados. A natureza humana é vista como essencialmente boa, concebendo o mal como forças ou agentes externos que poluem nossa natureza e perturbam a harmonia primordial. Ao contrário das demais religiões, Xintoísmo não tem textos doutrinais.

Tudo se realiza através de ritos. O Budismo entrou no Japão através da China e Coreia. Não sem uma boa dose de dificuldades, foi encontrando espaços e adotado como religião japonesa. A razão fundamental pela qual o Budismo foi aceito, foi sua disposição de aceitar as práticas e tradições xintoístas, da mesma forma que o Xintoísmo estava disposto às crenças e às práticas budistas. Assim, muitas práticas estritamente budistas tornaram-se práticas xintoístas.

O Xintoísmo deu aos japoneses a explicação da existência do cosmos. Contudo, faltava a explicação para o após-morte. Aqui entrou o Budismo que introduz a ideia do esvaziamento de si mesmo para atingir um estado superior de existência. "O Budismo é a religião para a morte da mesma forma que o Xintoísmo é a religião para a vida" (Picken 73).

São dois opostos que, quando colocados juntos, fazem uma religião completa que poderia incidir sobre todos os aspectos da realidade e responder a muitas perguntas, bem melhor que se dependêssemos da resposta de uma só. Aí pode estar a razão por que numa população de 127 milhões de habitantes encontramos a mesma cifra para cada uma das duas religiões no Japão.
A experiência de integração do Budismo e Xintoísmo pode ser uma fonte de inspiração para o diálogo inter-religioso.

Missionário Pe. Olmes Milani CS
Do Japão para a Rádio Vaticano.