Cordeiros ou lobos? (14 de fevereiro de 2017)

PAPA FRANCISCO

MEDITAÇÕES MATUTINAS NA SANTA MISSA CELEBRADA
NA CAPELA DA CASA SANTA MARTA

Cordeiros ou lobos?

Terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 07 de 16 de fevereiro de 2017

Na festa litúrgica dos Santos Cirilo e Metódio, «bons arautos do Evangelho» que «arriscaram tudo» e «tornaram a Europa mais forte», o Papa Francisco refletiu sobre a «missionariedade da Igreja» e acerca das características que deve ter quem é «enviado a proclamar a palavra de Deus».

A meditação do Pontífice inspirou-se na oração da coleta do dia, na qual se pede «que todos os povos — todos os homens! — recebam a palavra de Deus e formem o santo povo fiel de Deus». E se para «formar o povo» é preciso «aceitar a palavra», então «são necessários semeadores de palavra, de missionários, de verdadeiros arautos». Como os Santos Cirilo e Metódio, padroeiros da Europa, os quais «foram bons: arautos capazes, que anunciaram a palavra de Deus. E conseguiram anunciá-la até na língua daqueles povos, para que a entendessem».

Também nas leituras propostas pela liturgia se falava de missionariedade, com Jesus que envia os discípulos (Lc 10, 1-9) e com Paulo e Barnabé que são enviados (At 13, 46-49). Mas, perguntou Francisco, como deve ser «a personalidade de alguém enviado a proclamar a palavra de Deus?». Enumerou três características.

Antes de tudo «de Paulo e Barnabé diz-se que falavam com franqueza». Portanto a palavra de Deus deve ser anunciada «com franqueza, isto é, abertamente; inclusive com vigor, com coragem». São exatamente estas, explicou, as traduções da palavra grega usada por Paulo na Escritura: parrésia. Isto significa que «a palavra de Deus não pode ser anunciada como uma proposta — “mas, se gostares”... — nem como uma ideia filosófica ou moral, boa – “mas tu podes viver assim...”». Ao contrário, ela «deve ser proposta com franqueza, com vigor, para que penetre, como diz Paulo, até aos ossos».

De facto, se «a pessoa não tiver coragem — coragem espiritual, coragem no coração, se não for apaixonada por Jesus, é dele que vem a coragem — dirá, sim, algo interessante, algo moral, que fará bem, um bem filantrópico», mas nela não se encontrará a palavra de Deus. Deste modo será «incapaz de formar o povo de Deus», porque «só a palavra de Deus proclamada com esta franqueza, com esta coragem, é capaz de formar o povo de Deus».

A segunda característica do enviado emerge do trecho evangélico. Jesus diz: «A messe é grande mas os operários são poucos. Rogai ao Senhor da messe a fim de que mande operários para a sua messe». Comentou o Papa: «a palavra de Deus deve ser proclamada com oração», e isto deve ser feito «sempre». Com efeito, acrescentou, «sem oração, podes pronunciar um lindo discurso, dar uma boa instrução, muito boa, mas não é a palavra de Deus. Só de um coração em oração pode sair a palavra de Deus». Portanto, é necessária a oração «a fim de que o Senhor acompanhe esta semeadura da palavra, para que o Senhor irrigue a semente e ela brote».

Por fim, do Evangelho emerge «um terceiro traço que é interessante». Lê-se: «eis que vos envio como cordeiros entre lobos». O que significa? «O verdadeiro pregador — explicou o Pontífice — tem consciência de ser débil, que não se pode defender sozinho». O enviado «entre os lobos» poderia objetar: «Mas, Senhor, para que me comam?». A resposta é: «Vai! Este é o teu caminho». A tal propósito Francisco evocou uma «reflexão muito profunda» de João Crisóstomo: «Se não fores como cordeiro, mas como lobo entre os lobos, o Senhor não te protegerá: defende-te sozinho». Isto é: «quando o pregador se considera muito inteligente ou quando quem tem a responsabilidade de levar em frente a palavra de Deus é astuto» e talvez pense: «ah, defendo-me destas pessoas!», então «acaba mal», ou «negocia a palavra de Deus: com os poderosos, os soberbos...».

Para corroborar este pensamento, o Papa narrou uma vicissitude («não sei se é verdadeira ou não — disse — mas ajuda a pensar»). Refere-se a uma pessoa «que se vangloriava de pregar bem a palavra de Deus, sentindo-se lobo: “Tenho a força, não preciso de ajuda, não sou um cordeiro”». Depois da sua pregação, tendo ido ao confessionário, veio ter com ele «um “peixe grande”, um grande pecador», que «chorava, chorava, chorava» pelos «muitos pecados» e, arrependido «queria pedir perdão». Então o confessor, pensando que era por mérito da sua pregação, «começou a inchar-se de vaidade» e perguntou ao penitente: «Diga-me, qual foi a palavra que eu disse que mais o comoveu, na qual o senhor sentiu que devia arrepender-se?». E a resposta foi: «Quando o senhor disse: passemos para outro assunto».

É só uma anedota para explicar que «quando quem deve anunciar a palavra de Deus o faz seguro de si mesmo e não como um cordeiro, acaba mal». Se, pelo contrário, o fizer «como um cordeiro, será o Senhor que defenderá os cordeiros. Os lobos não poderão. Talvez te tirem a vida, mas o teu coração permanecerá fiel ao Senhor».

«Assim — concluiu o Papa — é a missionariedade da Igreja. Deste modo proclama-se a palavra de Deus. Assim são os grandes missionários, os que proclamam a palavra não como algo próprio mas com a coragem, com a franqueza que vem de Deus». São aqueles que «por se sentirem insignificantes, rezam». Portanto «os grandes arautos que semearam e ajudaram a crescer as Igrejas no mundo, foram homens corajosos, de oração e humildes». De resto, acrescentou o Pontífice, «o próprio Jesus diz-nos: “E quando tiverdes feito tudo isto, dizei: sou um servo inútil”. O verdadeiro pregador sente-se inútil porque entende que é a força da palavra que leva em frente o reino de Deus».

E convidou a rezar aos Santos Cirilo e Metódio, «padroeiros da Europa, arautos do Evangelho, para que nos ajudem a proclamar a palavra de Deus com coragem, oração e humildade».