Como uma família (26 de setembro de 2017)

PAPA FRANCISCO

MEDITAÇÕES MATUTINAS NA SANTA MISSA CELEBRADA
NA CAPELA DA CASA SANTA MARTA

Como uma família

Terça-feira, 26 de setembro de 2017

Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 39 de 28 de setembro de 2017

«Familiaridade» foi a palavra-chave da homilia pronunciada pelo Papa. O centro foi a perspetiva que cada cristão tem de «se sentir família de Jesus», viver em «proximidade» com ele cada momento do dia, até aquele aparentemente mais banal.

Foi precisamente Jesus quem ofereceu esta oportunidade a cada homem, dando ele mesmo — disse o Pontífice — «um passo a mais na proximidade que tem connosco». Isto emerge claramente do evangelho do dia (Lucas 8, 19-21) no qual se lê que «Jesus estava no meio de uma multidão a pregar» e «chega a sua família» que o procurava. «Quando lhe dizem que estava ali sua mãe, os seus parentes, a sua família», Jesus «amplia o conceito e diz: “Minha mãe e meus irmãos são estes, que ouvem a palavra de Deus e a observam”». Eis então, explicou, o «passo a mais» que Jesus dá, o qual afirma: «Tenho uma família maior do que a pequena na qual vim ao mundo». Deste modo ele «faz-nos pensar em nós que somos a sua família», isto é, quem «ouve a palavra de Deus e a observa».

Este gesto de Jesus remete para «o conceito de familiaridade com Deus, de familiaridade com Jesus». De facto, disse, «podemos ser discípulos, podemos ser amigos mas ser familiar é mais ainda». Há um salto de qualidade se considerarmos o «primeiro mandamento que recebemos na pessoa do nosso pai Abraão», ou seja: «Caminha na minha presença e sê irrepreensível». Hoje aquele mandamento «cresceu e ficou maior, mais amplo: “Ouve a palavra de Deus. Observa-a, assim serás a minha família, terás familiaridade comigo”».

A partir disto, sugeriu o Pontífice, cada um pode avaliar a própria relação com Jesus e questionar-se: «É um comportamento formal, educado? Vou rezar, depois volto para os meus afazeres, esqueço-me de Jesus e faço as minhas coisas, volto a rezar». Ou seja, é uma «atitude diplomática»? Ou «familiar», na qual se sente «familiaridade com o Senhor»?

Para responder é preciso compreender «o que significa esta palavra que os padres espirituais na Igreja usaram muito e nos ensinaram: a familiaridade com Deus». A este propósito, o Papa ofereceu algumas indicações. Antes de mais, significa «entrar na casa de Jesus: entrar na atmosfera, viver a atmosfera, que existe na casa de Jesus. Viver ali, contemplar, ser livre, ali». De facto, quantos «habitam a casa do Senhor», dado que são «filhos» e «têm familiaridade com ele», são também «livres». Há uma diferença substancial com quem não tem esta familiaridade: Francisco evocou uma expressão bíblica, isto é, «os filhos da escrava» e aplicou-a a quantos «são cristãos mas não ousam aproximar-se, não ousam ter esta familiaridade com o Senhor, e há sempre uma distância que os separa do Senhor».

Depois, o segundo aspeto a considerar, «familiaridade com Jesus significa estar com ele, olhar para ele, ouvir a sua palavra, procurar praticá-la, falar com ele». Um diálogo simples, explicou, no qual se fala com o Senhor sobre as próprias situações, com «a oração que se faz também caminho: “Mas, Senhor o que pensas?”». De resto, trata-se da familiaridade que tinham os santos. O Papa recordou, por exemplo, Santa Teresa «que encontrava o Senhor em toda a parte, era familiar com o Senhor em todos os lugares, até entre as panelas na cozinha».

Mas além do «estar com o Senhor», acrescentou Francisco, é importante «permanecer no Senhor», como ele mesmo aconselhou «no discurso da última ceia». O pensamento, disse o Pontífice, vai «ao início do Evangelho, quando João indica: “Este é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”. E André e João seguiram Jesus: “Mestre, onde estás?” — “Vinde ver”». Os dois discípulos seguiram-no e, diz o Evangelho com uma «frase lindíssima: “Permaneceram, ficaram com ele o dia inteiro, a noite inteira”».

Portanto, concluiu o Papa, é necessário proceder «neste comportamento de familiaridade com o Senhor» e não permanecer cristãos que se satisfazem em ter um «comportamento bom com o Senhor mas tu lá e eu cá». O convite do Senhor é claro e mais abrangente: «Somos família, sois a minha família se ouvirdes a minha palavra e a praticardes». É preciso adotar o estilo de quem, com os seus problemas, durante o dia, «quer esteja no autocarro ou no metropolitano, interiormente fala com o Senhor, ou pelo menos sabe que o Senhor olha para ele, está próximo dele: esta é a familiaridade, é proximidade, é sentir-se parte da família de Jesus».