Carta de amor (11 de novembro de 2016)

PAPA FRANCISCO

MEDITAÇÕES MATUTINAS NA SANTA MISSA CELEBRADA
NA CAPELA DA CASA SANTA MARTA

Carta de amor

Sexta-feira 11 de novembro de 2016

Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 46 de 17 de novembro de 2016

O amor cristão é sempre «concreto», com «obras de misericórdia», porque tem como único critério a encarnação de Cristo; por esta razão não se deve cair no «processo» sedutor de «intelectualizar e ideologizar» que «descarna o amor», chegando assim ao «triste espetáculo de um Deus sem Cristo, de um Cristo sem Igreja e de uma Igreja sem povo». Na missa celebrada a 11 de novembro em Santa Marta, o Papa admoestou precisamente contra o risco de crer «num amor de romance ou de telenovela, mundano, filosófico, abstrato e soft».

A reflexão do Pontífice partiu do trecho da segunda leitura de São João (1, 3-9) proposto pela liturgia: «Parece — observou — uma carta de um apaixonado: é o diálogo de amor entre o pastor e a sua esposa, a Igreja». Um diálogo «tão delicado, tão respeitador», a ponto que o apóstolo chama a Igreja «senhora eleita por Deus».

Com este «título cheio de amor o pastor dirige-se à Igreja». E sempre «com tanta delicadeza recorda que “caminhar no amor” é o mandamento que recebemos do Senhor».

De facto, na carta de João lê-se: «E agora, senhora, rogo-te, não como se escrevesse um novo mandamento, mas aquele mesmo que desde o princípio tivemos: que nos amemos uns aos outros». É um convite a caminhar «no amor». Mas é deveras com «tanta mansidão e tanto respeito» que «o pastor se dirige à sua Igreja, à sua esposa».

«De que amor se trata?» foi a questão apresentada por Francisco. «Porque esta palavra — explicou — hoje é usada, mas foi sempre usada, para tantas coisas: tudo é amor». Eis por que é necessário compreender bem «de qual amor» se trata. É «o amor, por exemplo, de um romance ou de uma telenovela, porque também isto se diz que é amor?». Ou então é «o amor teórico, dos filósofos?».

Na sua carta, João cita as palavras do pastor à sua esposa para lhe sugerir que esteja atenta. «Surgiram no mundo muitos sedutores» que, disse o Papa, «propõem outro amor ou outra explicação do amor» e «também outra explicação do amor cristão, porque para eles é assim».

«O critério do amor cristão — afirmou o Pontífice — é a encarnação do verbo». A este propósito João é explícito: «Porque já muitos enganadores entraram no mundo, os quais não confessam que Jesus Cristo veio em carne». E prossegue: «Este tal é o enganador e o anticristo!». De resto, explicou o Papa, «um amor que não reconhece que Jesus veio em carne, em carne, não é o amor que Deus nos comanda: é um amor mundano, é um amor filosófico, é um amor abstrato, é um amor falido, é um amor soft».

Ao contrário, «o critério do amor cristão é a encarnação do Verbo», relançou Francisco. E «quem diz que o amor cristão é outra coisa, este é o anticristo, que não reconhece que o Verbo veio em carne». É precisamente «esta a nossa verdade: Deus enviou o seu Filho, encarnou-se e levou uma vida como a nossa». Eis por que se deve «amar como Jesus amou; amar como Jesus nos ensinou; amar seguindo o exemplo de Jesus; amar, caminhando pela vereda de Jesus». E «a vereda de Jesus é dar a vida».

No trecho evangélico de Lucas (17, 26-37), recordou o Papa, «Jesus admoesta-nos: «A pessoa que procura os seus próprios interesses nunca terá a vida verdadeira; mas quem se esquece de si mesmo terá a vida verdadeira». Com efeito, «ele perdeu a vida por amor, para a reencontrar na sua ressurreição». Por conseguinte, «a única maneira de amar como Jesus amou é sair continuamente do próprio egoísmo e pôr-se ao serviço dos outros». Também o apóstolo Tiago repete isto com força na sua carta, «porque o amor cristão é um amor concreto, porque é concreta a presença de Deus em Jesus Cristo, que veio em carne: a encarnação do verbo».

Voltando à carta de João, o Pontífice repetiu também as palavras com as quais o pastor «admoesta bem» a “senhora”: «Prestai atenção a vós próprios para não arruinar aquilo que construímos e para receber uma recompensa plena». Trata-se de um convite a prestar atenção, com mais um trecho: «Todo aquele que prevarica e não persevera na doutrina de Cristo não tem Deus; quem persevera na doutrina de Cristo, esse tem tanto o Pai como o Filho». Por conseguinte, explicou o Papa, «o Verbo veio em carne, mas vós estais também dentro de uma encarnação, entre aspas, na comunidade, na Igreja, porque quem prevarica esta doutrina da carne, quem prevarica e não permanece na doutrina de Cristo, não possui Deus». E «este prevaricar é um mistério: é sair do mistério da encarnação do Verbo, do mistério da Igreja, porque a Igreja é a comunidade em volta da presença de Cristo, o qual preserva».

Francisco fez referência à palavra grega «proagon», que é «muito forte», para indicar «quem prevarica». E «dali — prosseguiu — surgem todas as ideologias sobre o amor, as ideologias sobre a Igreja, as ideologias que privam a Igreja da carne de Cristo». Mas precisamente «estas ideologias descarnam a Igreja». Levam a dizer: «sim, eu sou católico; sim, sou cristão; eu amo todo o mundo com um amor universal». Mas «é tão etéreo». Ao contrário «um amor está sempre dentro, é concreto, e não além desta doutrina da encarnação do Verbo».

«O caminho da Igreja, a pertença à Igreja — afirmou o Pontífice — é sempre dentro, se prevaricar, sai da Igreja». E assim «quem quiser amar não como Cristo ama a sua esposa, a Igreja, com a própria carne e dando a vida, ama ideologicamente: não ama com todo o corpo e com toda a alma». E «este modo de proceder das teorias, das ideologias, até das propostas de religiosidade tiram a carne de Cristo, tiram a carne da Igreja, prevaricam e arruínam a comunidade, arruínam a Igreja». Nunca se deve «prevaricar o seio da mãe, da santa mãe Igreja hierárquica».

A carta de João revela o seu amor pela Igreja, em particular precisamente quando faz presente que «se começarmos a teorizar sobre o amor, sobre o caminhar no amor fora da Igreja, fora da encarnação do Verbo — explicou o Papa — chegaremos a uma realidade muito frequente na história da Igreja, também nos nossos dias: chegaremos à transformação daquilo que Deus quer, que quis com a encarnação do Verbo; chegaríamos a um Deus sem Cristo, a um Cristo sem Igreja e a uma Igreja sem povo». E «tudo neste processo de descarnar a Igreja».

Antes de retomar a celebração, Francisco pediu para rezar «ao Senhor a fim de que o nosso caminhar no amor nunca — nunca! — nos transforme num amor abstrato». E para que o amor seja «concreto, com as obras de misericórdia», para tocar «a carne de Cristo ali, de Cristo encarnado». Foi «por isso que o diácono Lourenço disse que os pobres são o tesouro da Igreja, porque são a carne sofredora de Cristo».

Ao Senhor, concluiu o Papa, «pedimos esta graça de não prevaricar e de não entrar neste processo, que talvez seduza tanta gente, de intelectualizar, de ideologizar este amor, descarnando a Igreja, descarnando o amor cristão». E «de não chegar ao triste espetáculo de um Deus sem Cristo, de um Cristo sem Igreja e de uma Igreja sem povo».