Bento XVI e a "Caritas in veritate", a terceira e última das encíclicas de seu Pontificado

2013-02-28 Rádio Vaticana


Cidade do Vaticano (RV) - Prosseguindo nossa série de especiais destes dias dedicada ao Pontificado de Bento XVI, voltamos ao espaço reservado a uma das expressões mais significativas do alto Magistério de um Papa, ou seja, suas Cartas encíclicas.
Com seus quase oito anos de Pontificado, Bento XVI deixa-nos três encíclicas: Deus caritas est, Spe salvi e Caritas in veritate.

Na edição passada nos dedicamos à segunda encíclica – Spe salvi (Salvos na esperança). Nesta edição nos ocupamos da terceira e última delas, a Caritas in veritate (A caridade na verdade). Considerando o tempo de que dispomos, trata-se, como fizemos com as outras duas encíclicas, apenas de lançar um olhar buscando colher suas linhas gerais – a título de uma primeira abordagem.

Assinada por Bento XVI em 29 de junho do ano 2009, quinto de Pontificado, trata-se de um texto de 79 pontos, em que se mostra – a um mundo ainda abalado pela crise financeira – um conjunto de orientações para o mundo econômico e exigências de solidariedade. Lembrar os pobres e os mais desprotegidos no tempo da globalização é o fio condutor do documento, que procura apresentar caminhos para o "verdadeiro desenvolvimento de cada pessoa e de toda a humanidade".

Bento XVI reafirma que a Igreja não tem soluções técnicas para apresentar, mas "uma missão de verdade para cumprir".

O I Capítulo é dedicado à encíclica "Populorum Progressio" (1967), de Paulo VI, retomando "os seus ensinamentos sobre o desenvolvimento humano integral" e pedindo um "verdadeiro humanismo", aberto ao "Absoluto".

A falta de fraternidade entre homens e povos é uma das preocupações apresentadas: "A sociedade cada vez mais globalizada torna-nos vizinhos, mas não nos faz irmãos".

O capítulo II aborda a questão do desenvolvimento no nosso tempo, começando com um alerta de Bento XVI: "O lucro é útil se, como meio, for orientado para um fim que lhe indique o sentido e o modo como o produzir e utilizar".

"As forças técnicas em campo, as inter-relações a nível mundial, os efeitos deletérios sobre a economia real duma atividade financeira mal utilizada e majoritariamente especulativa, os imponentes fluxos migratórios, com frequência provocados e depois não geridos adequadamente, a exploração desregrada dos recursos da terra, induzem-nos hoje a refletir sobre as medidas necessárias para dar solução a problemas que são não apenas novos relativamente aos enfrentados pelo Papa Paulo VI, mas também e sobretudo com impacto decisivo no bem presente e futuro da humanidade", indica.

O Papa admite que "as grandes novidades, que o quadro atual do desenvolvimento dos povos apresenta, exigem em muitos casos novas soluções", considerando como prioritário "o objetivo do acesso ao trabalho".

Fraternidade, desenvolvimento econômico e sociedade civil são o tema do Capítulo III, em que se alerta contra uma visão "meramente produtiva e utilitarista da existência".

Regulação, legislação e redistribuição da riqueza são temas abordados num conjunto de reflexões em que se procura afastar a ideia de um mercado negativo por natureza e se fala da importância das "leis justas" nos Estados para a "civilização da economia".

Esta seção conclui-se com uma nova avaliação do fenômeno da globalização, visto como mais do que um mero processo socioeconômico.

No Capítulo IV aparecem as questões direitos e deveres, da ecologia e da ética. Bento XVI fala de uma reivindicação do "supérfluo" que contrasta com a falta de água e alimento em certas regiões subdesenvolvidas. O Papa afirma também que é "errado" considerar o aumento da população como "primeira causa de subdesenvolvimento", lembrando que a queda dos nascimentos "põe em crise os sistemas de assistência social".

A colaboração da família humana está no centro do Capítulo V, onde se lê que os cristãos podem contribuir para o desenvolvimento "apenas se Deus encontrar lugar também na esfera pública". O Papa faz referência ao princípio da subsidiariedade, como "antídoto" contra qualquer forma de "assistencialismo paternalista".

A reforma "urgente" da ONU e da atual arquitetura econômica e financeira mundial levam o Papa a defender uma nova e verdadeira "autoridade política mundial".

O sexto e último capítulo é dedicado ao tema do desenvolvimento dos povos e da técnica, com aviso em relação à ideologias tecnocráticas. Neste contexto, é referido que "um campo primário e crucial da luta cultural entre o absolutismo da técnica e a responsabilidade moral do homem é o da bioética".

O Papa encera sua encíclica com as seguintes palavras: "Que a Virgem Maria (...) nos proteja e obtenha, com a sua intercessão celeste, a força, a esperança e a alegria necessárias para continuarmos a dedicar-nos com generosidade ao compromisso de realizar o «desenvolvimento integral do homem todo e de todos os homens»". (Ecclesia/RL)