Bato à porta e bombardeio-te
2012-07-06 L’Osservatore Romano
As guerras dos séculos XX e XXI apresentam uma predominância de guerras civis, nas quais as populações já não são elementos passivos dos conflitos. Com o tempo, estas guerras causaram o fenómeno inédito das guerras humanitárias,
cuja origem remonta à velha prática do recurso ao mal menor. Hoje o espaço ocupado pelas intervenções humanitárias e pela militarização dos direitos humanos deu vida à noção de violência legalizada. «Bater à porta antes de bombardear» – a fórmula adoptada na guerra de Gaza, conflito no qual a natureza elástica do direito humanitário («um acto proibido torna-se lícito se for realizado por um número consistente de países»), foi posto à prova. Estes e outros são alguns dos conceitos que emergem do livro de Carlo Jean, com Germano Dottori, Guerre umanitarie. La militarizzazione dei diritti umani (Milão, Dalai editore, 2012, 304 páginas, 17,50 euros), no qual, com a integração daquelas estudadas por Eyal Weizman, as guerras examinadas são descritas como uma fisiologia. Nascidas como guerras civis, transformaram-se em guerras humanitárias quando as partes mais débeis conseguiram garantir o apoio da opinião pública internacional e consequentemente a intervenção dos Estados socorristas. Assim, os muçulmanos da Bósnia e os albaneses do Kosovo encontraram salvação na opressão sérvia. Não sem recorrer, todavia, a armadilhas, provocações, enganos e pretextos montados de tal modo que faziam parecer vítimas inocentes os seus idealizadores e criminosos aqueles que caíram nas provocações, determinando reacções desproporcionadas.
Paradoxos e oxímoros: foi no âmbito dos conflitos humanitários, nos quais beligerante algum admite que combate uma guerra injusta, que fenómenos como os escudos humanos encontraram espaço. Crianças postas como escudo diante de auto-carros lançados em operações bélicas. O facto novo é que hoje para participar numa guerra humanitária vão acompanhados do advogado (que vigia a legalidade das acções nas quais se comprometem), do responsável pelos recursos humanos (verifica que as regras de recrutamento sejam respeitadas) e do adido para as relações públicas (escolhe o tipo de intervenção com base na opinião pública). Segundo Joseph S. Nye, professor em Harvard, o tempo das intervenções humanitárias acabou («La Stampa», 12 de Junho): o ditado «o caminho do inferno está ladrilhado com boas intenções» parece cada vez mais verdadeiro.






