Atentos aos fogos de artifício (10 de novembro de 2016)

PAPA FRANCISCO

MEDITAÇÕES MATUTINAS NA SANTA MISSA CELEBRADA
NA CAPELA DA CASA SANTA MARTA

Atentos aos fogos de artifício

Quinta-feira 10 de novembro de 2016

Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 46 de 17 de novembro de 2016

Foi contra a tentação de permanecer fascinados pelo «fogo de artifício da religião do espetáculo» sempre em busca de «coisas novas, revelações, mensagens» e que por isso «dura um instante e depois esvaece» que o Papa alertou na missa desta manhã. Francisco propôs também um exame de consciência para verificar se realmente «preservamos a esperança»: atitude certa de quem trabalha para fazer crescer «o reino de Deus que já está no meio de nós». Inspirando-se no trecho evangélico de Lucas (17, 20-25), proposto hoje pela liturgia, o Papa realçou imediatamente que «naquele tempo havia curiosidade em conhecer o tempo do reino de Deus: quando teria vindo a libertação dos romanos ou a libertação do povo de Deus».

Na realidade aquelas pessoas «não sabiam bem o que fosse aquele reino de Deus e assim perguntavam-no a Jesus». E «Ele respondia com clareza: “Já chegou, está no meio de nós”». Explicando também que «o reino de Deus no meio de nós é como a semente de mostarda que é pequenina, mas depois é semeada e cresce, cresce, cresce, mas com o tempo». E «o mesmo acontece com a semente do trigo».

No Evangelho, explicou o Papa, é sugerida a este propósito precisamente «a figura da semente» mas também «o fermento com a farinha que a mulher amassa muito bem para fazer o pão e o que era pequenino cresce, cresce, cresce e não sabemos como». Jesus, «quando explica isto, diz que não sabemos como a semente cresce, germina; não sabemos como o fermento faz crescer a massa, mas o reino de Deus é assim: está no meio de vós, assim, como uma semente que cresce, como o fermento na massa».

Cabe a nós, afirmou Francisco, «preservá-lo bem e esperar que cresça, que dê fruto». Sim, «esperar, para que o Reino de Deus se torne forte na esperança». Também «Paulo dizia isto aos romanos: “Na esperança fomos salvos”». Aliás, explicou o Papa, «a nossa salvação é sempre intenção de esperança: não é um possuir, agora», como querendo dizer «eu estou salvo, sou justo». Não, prosseguiu o Pontífice, «são intenções de esperança e o reino de Deus cresce assim, com o nosso trabalho: pensemos no trabalho para preservar bem o trigo que cresce, que germina também com o nosso repouso». Porque «Jesus nos ensina que o reino de Deus é como o trigo semeado: o homem vai e, até enquanto dorme, cresce sozinho» pois «é Deus que garante o crescimento». E assim «tanto o nosso trabalho quanto o nosso repouso fazem crescer, fazem germinar o reino de Deus». Mas «necessitamos de esperança para ver este crescimento». E precisamente «esta é a primeira coisa que Jesus hoje nos diz: o reino de Deus está no meio de nós».

Na realidade Jesus diz-nos também «outra coisa: como acontece, ou seja o modo» explicou Francisco. Com efeito, «o reino de Deus não vem de maneira que atrai a atenção e ninguém dirá “eis aqui” ou “eis ali”. Não, o reino de Deus «está no meio de vós: não é uma religião do espetáculo» pelo qual «estamos sempre a procurar coisas novas, revelações, mensagens».

«Deus falou em Jesus Cristo: esta é a última palavra de Deus» afirmou o Papa. O resto é «como os fogos de artifício que te iluminam por um momento e depois o que permanece? Nada, não há crescimento, não há luz, não há nada: um instante». Contudo, reconheceu Francisco, «muitas vezes somos tentados por esta religião do espetáculo a procurar coisas alheias à revelação, à mansidão do reino de Deus que está no meio de nós e cresce». E esta religião do espetáculo «não é esperança: é a vontade de ter algo nas mãos». Mas «a nossa salvação — explicou — é medida em esperança, a esperança do homem que semeia o trigo ou da mulher que prepara o pão, misturando fermento e farinha: na esperança que cresça». Ao contrário, «esta luminosidade artificial dura um instante e depois esvaece, como o fogo de artifício: não serve para iluminar uma casa, é um espetáculo».

«O reino de Deus existe» relançou o Papa «mas permanece a pergunta: quando virá o Filho do Homem?». E «esta é outra pergunta subjacente à primeira». É Jesus quem nos dá a explicação: «Porque como o relâmpago saltitando brilha de uma extremidade para outra do céu, assim será o Filho do Homem no seu dia». Afirma-o também Paulo aos Tessalonicenses: «Será o relâmpago que transforma tudo, num instante, e tudo será diferente. E este será o fim». Portanto, prosseguiu o Papa, «esta será a plenitude do reino de Deus, quando o Senhor voltar e for assim. Contudo, antes que chegue a plenitude, diz o Senhor, é necessário que Ele, o Filho do Homem, sofra muito e seja rejeitado por esta geração: é o sofrimento da cruz, do trabalho, de tudo isto que levamos em frente».

Na sua reflexão o Pontífice sugeriu outra pergunta: «Se o reino de Deus já está no meio de nós, e se não nos devemos deixar atrair pelas coisas espetaculares como os fogos de artifício e se não servem para nada, então, o que devemos fazer enquanto esperamos que venha o reino de Deus, que venha o Senhor?». E como resposta Francisco sugeriu uma palavra-chave: «preservar». Sim, «preservar com paciência: a paciência do nosso trabalho, dos nossos sofrimentos». Sim, «preservar como preserva o homem que lançou a semente e preserva a planta e faz com que não haja erva daninha nas suas proximidades, para que a planta cresça». Trata-se praticamente de «preservar a esperança».

A este propósito o Papa propôs outra questão: «Se o reino de Deus está no meio de nós, se todos temos esta semente dentro, se temos o Espírito Santo ali, como o preservamos? Como posso distinguir a planta boa do trigo da do joio?». Em síntese «o reino de Deus cresce e que devemos fazer?». A resposta é clara: «Preservar, crescer na esperança, preservar a esperança». Porque «na esperança todos somos salvos». Precisamente «este é o fio condutor: a esperança é o fio da história da salvação, a esperança de encontrar o Senhor definitivamente». Francisco não deixou de sugerir um exame de consciência pessoal: «Podemos questionar-nos sobre como, eu, preservo a esperança? Prefiro coisas pontuais, fogos de artifício? Tenho a paciência, também a mortificação, a cruz para preservar aquela esperança que é semeada com o batismo no nosso coração? Aquela esperança que não desilude» porque «a esperança nunca desilude!».

A verdade que «o reino de Deus está no meio de nós» interpela-nos sobre «como preservamos o reino de Deus, esta esperança?». E «alguém — insistiu o Papa — talvez queira perguntar: tenho esperança?». Eis porque é oportuno questionar «a nós mesmos: tenho a esperança ou vou em frente como posso e não sei discernir o bem do mal, o trigo do joio, a luz, a suave luz do Espírito Santo da luminosidade desta coisa artificial?».

E assim Francisco convidou a questionar-nos «sobre a nossa esperança nesta semente que está a crescer em nós e sobre como preservamos a nossa esperança: o reino de Deus está no meio de nós, mas devemos com o repouso, com o trabalho, com o discernimento, preservar a esperança deste reino de Deus que cresce, até ao momento em que o Senhor vier e tudo for transformado». Sim, concluiu o Papa, «num instante: tudo, o mundo, nós, tudo». E «como diz Paulo aos cristãos de Tessalónica, naquele momento permaneceremos todos com Ele».