Aos membros da Comunidade Católica Shalom (4 de setembro de 2017)

DISCURSO DO PAPA FRANCISCO
AOS MEMBROS DA COMUNIDADE CATÓLICA
SHALOM

Sala Paulo VI
Segunda-feira, 4 de setembro de 2017

[Multimídia]

 

Muito obrigado pelos testemunhos. Perguntei se podia falar em espanhol... [Sala responde: Sim!»] e não em italiano, assim posso expressar-me melhor. Mas falando em espanhol, fala-se um pouco de portunhol e um pouco de cocoliche, que é uma mistura de italiano com espanhol... Assim arranjamo-nos com o espanhol.

João, encontraste o sentido da tua vida na oração, na vida fraterna em comunidade e na evangelização, não é verdade? Rezando, partilhando e evangelizando apercebeste-te de que a tua vida tinha um sentido. Repara que os três verbos que usaste para explicar isto são verbos de movimento, sair de ti mesmo. Saíste de ti mesmo na oração para te encontrares com Deus, saíste de ti mesmo ao compartilhar a fraternidade para te encontrares com os irmãos, e saíste de ti mesmo para ir evangelizar, para dar uma boa notícia. E a boa notícia — usaste a palavra — é a misericórdia num mundo marcado pelo desespero e pela indiferença. É curioso, a misericórdia é algo absoluto. Não podes falar apenas da misericórdia, tens que a testemunhar, que a compartilhar, que ensinar saindo de ti mesmo. Para falar de misericórdia é preciso pôr toda a carne “no braseiro”, caso contrário não se entende esse testemunho de não estar fechado em si mesmo ou nos próprios interesses, mas de sair. Sair procurando Deus. Não é fácil procurar Deus, faz parte de um caminho. Sair compartilhando com os demais — sem se comportar como o «menino» mimado ao qual oferecem todos os brinquedos e lhe dão tudo — e sair para contar aos outros que Deus é bom, que Deus está à tua espera até nos piores momentos da vida. E talvez esta seja a mensagem da misericórdia que se pode dar, não é? Recorda-te do trecho do filho que volta para casa. Em Lucas, no capítulo 15, há uma frase que diz que o pai o viu ao longe. Tinha-se afastado de casa alguns anos antes, houve quem o levou a gastar tudo o que possuía. Viu-o ao longe. Isto faz-me pensar que esse pai, todos os dias e talvez a toda a hora, subia ao terraço para ver se o filho voltava. Deus é assim connosco, até nos piores momentos de pecado, e também nos momentos difíceis. E o Evangelho prossegue: «E o Pai quando o viu ao longe ficou comovido — com esse verbo que em hebraico significa «as suas entranhas mexeram-se», essas entranhas paternas e maternas de Deus — e saiu a correr para o abraçar». Esse filho cometeu um dos pecados mais graves, estava na pior situação, e quando disse «vou à casa do meu pai», o pai já estava à espera dele. Isto é misericórdia, nunca desesperar. Além disso, parece que o nosso Deus tem uma predileção especial pelos pecadores, inclusive os de “puro-sangue”: espera por eles. Portanto eu sujiro-te isto: continua a sair de ti mesmo e dá a entender a todos que há sempre um pai que espera por nós com carinho e com ternura, ao primeiro passo que quisermos dar. Eis o que sinto vontade de te dizer. Obrigado.

Justine, tu recebeste o batismo durante o jubileu da misericórdia, que maravilha! Apercebeste-te que ter encontrado Deus te levou a despojar-te, a sair do estar concentrado em ti mesma indo para fora, em direção à alegria de viver por Deus e com Deus. Uma das coisas — são todos jovens aqui, inclusive vós, que sois jovens pela segunda vez, todos jovens, jovens da segunda etapa — uma das coisas que caracteriza a juventude e a eterna juventude de Deus, porque Deus é eternamente jovem, é a alegria, «o júbilo», a felicidade. À alegria contrapõe-se a tristeza, uma tristeza que é precisamente a da qual saíste. Saíste de algo que causa tristeza, que é estar concentrado em si mesmos, a autorreferencialidade. Um jovem que se fecha em si mesmo, que vive unicamente para si próprio, acaba — e espero que compreendam o verbo, porque é um verbo argentino — acaba por ficar empachado de autorreferencialidade, ou seja, cheio de autorreferencialidade. Há uma imagem que me surge agora: esta cultura em que temos que viver, dado que é muito egoísta, muito assim [faz um gesto] de olhar só para si, contém uma dose muito grande de narcisismo, desse ficar a contemplar-se a si próprio, e por muito tempo, ignorando os outros. O narcisismo causa-te tristeza porque vives preocupado em maquilhar a tua alma todos os dias, em aparecer melhor do que és, em contemplar se és mais bonito do que os demais, é a doença do espelho. Jovens, quebrai esse espelho! Não vos contempleis ao espelho, porque o espelho engana, olhai para fora, olhai para os demais, fugi deste mundo, desta cultura que estamos a viver — à qual fizeste referência — que é consumista e narcisista. E se algum dia quiserdes admirar-vos ao espelho, dou-vos um conselho: contemplai-vos ao espelho para vos rirdes de vós mesmos. Um dia fazei a prova: olhai e começai-vos a rir do que virdes nele, a vossa alma será refrescada. Saber rir-se de si próprio, isso dá alegria e salva-nos da tentação do narcisismo. Obrigado, Justine.

Mateus, falaste em português, brasileiro. Eu tenho que te fazer uma pergunta: «Quem é melhor, Pelé ou Maradona?» [Risadas e aplausos dos participantes]. Por muito tempo passaste pelo túnel da droga, que é um dos instrumentos que a cultura na qual vivemos tem para nos dominar e, por outro lado, é como que uma necessidade que temos para nos tornarmos subtis, invisíveis a nós próprios, como se fôssemos feitos de ar. A droga leva-nos a negar tudo o que temos arreigado, arreigamento carnal, arreigamento histórico, arreigamento problemático, tudo o que estiver arreigado. Corta a tua raiz e faz-te viver num mundo sem raízes, desenraizado de tudo. Desarreigado de projetos, desarreigado do presente, desarreigado do teu passado, da tua história, desarreigado da tua pátria, da tua família, do teu amor, de tudo. Acabas por viver num mundo sem qualquer arreigamento e é esse o drama da droga. Jovens totalmente desarreigados, sem compromissos concretos, isto é, sem verdadeiros compromissos de carne, porque na droga nem sequer sentes o teu próprio corpo. E depois de teres passado por essa experiência de invisibilidade, e quando tomas-te consciência, apercebeste-te de todos os arreigamentos que existem no coração. Eu pergunto a cada um de vós: estais conscientes dos verdadeiros arreigamentes que tendes no coração, estais conscientes das vossas raízes, estais conscientes dos vossos amores, estais conscientes dos vossos projetos, estais conscientes da vossa capacidade criativa, estais conscientes de que sois poetas neste universo para criar coisas novas e bonitas? Libertar-se da droga significa tomar consciência disto, é o testemunho de alguém que saiu dela, por isso coloca-nos perguntas que eu acabei de fazer. E cada qual responda para consigo mesmo: estou consciente de manter os pés no chão com todo o seu significado de arreigamento histórico, social, de arreigamento de sabedoria, de amor, de projetos, de capacidade criativa? E tu queres corresponder ao plano de Deus e dás-te conta de que para ti significa consolar as dores da humanidade, e dizes que neste caminho sinodal queres discernir a tua vocação. E neste caminho sinodal todos temos que discernir a nossa vocação — como afirmavas — para ver o que o Senhor nos quer dizer em vista de uma missão. Eu digo-to com uma só palavra, que não é minha: dar gratuitamente. Se tu estás aqui, se nós estamos aqui, é porque gratuitamente nos trouxeram aqui. Por favor, demos de graça o que recebemos. Dar gratuitamente o que recebemos. E dar de graça enche-te a alma, descomercializa-te, torna-te magnânimo, ensina-te a abraçar e a beijar, faz-te sorrir, liberta-te de qualquer interesse egoísta. Dá de graça o que recebeste gratuitamente, eis o ensinamento que Ele nos está convidando a fazer [Resposta com um «sim» pouco incisivo]. Ai, meu Deus, como estais! Parece que eu em vez de vos animar vos estou a dar um calmante para os nervos para vos adormecer. [Aplausos].

E os mais adultos, os mais antigos na comunidade Shalom, o que devem fazer, que serviço nos está a pedir hoje este mundo, este carisma, esta comunidade, que serviço? Há aqui um aspeto — é bom — os mais antigos e os mais jovens: o serviço que lhes é pedido é o diálogo, o diálogo entre vós, passar a tocha, passar a herança, passar o carisma, passar a vossa vivência interior. Contudo, quero ir mais além, e um dos desafios que este mundo nos pede hoje é o diálogo entre os jovens e os idosos, e baseio-me sobre o vosso testemunho: «Sim padre, ouvimo-lo dizer». E vão ouvi-lo de mim ainda muitas vezes: diálogo entre os jovens e os idosos. Os jovens precisam de ouvir os idosos e os idosos precisam de ouvir os jovens. «E eu, que vou fazer?», pode perguntar um jovem: «que vou fazer, falar com um idoso entediado, vai ser isso?». Eu fiz a experiência de o ter visto muitas vezes na outra diocese: ir com um grupo de jovens, por exemplo, a uma casa de repouso ou a um lar tocar guitarra para os idosos. Pois bem, toca-se guitarra e depois começa o diálogo, é espontâneo, surge, nasce sozinho, e os jovens não querem ir embora porque os idosos têm sabedoria, uma sabedoria que lhes chega ao coração e os estimula a ir em frente. Os idosos — para vós jovens — não devem ser guardados num roupeiro, não devem ser escondidos, os idosos esperam que um jovem vá e os ouça, os faça sonhar. E vós, jovens, precisais de receber destes homens e destas mulheres esses sonhos, essas ilusões que os façam reviver. Seria esta a minha resposta à experiência que os mais idosos em diálogo com os mais jovens do Movimento Shalom deveriam fazer. Ensinar e contribuir para o diálogo entre jovens e idosos. «Sim, eu falo com a minha mãe, com o meu pai». Não, o teu pai e a tua mãe não são velhos. Fala com o teu avô e com a tua avó, isto é, uma geração mais velha, eles possuem a sabedoria, e eles muito mais, precisam que batas ao seu coração para te darem a sabedoria. E seria esta a recomendação que vos faço: animai-vos, animai-vos nesse diálogo, esse diálogo é promessa para o futuro, esse diálogo ajudar-vos-á a ir em frente. Não sei se respondi à tua pergunta. [Moisés responde: «sim»]. Muito bem, obrigado. Não sei como continua agora o programa, mas surgiu-me uma dúvida no final da última pergunta do diálogo entre jovens e idosos: Moisés, és jovem ou idoso? (Resposta: Sou como tu, Santo Padre, como o senhor).