A mulher é a harmonia do mundo (9 de fevereiro de 2017)

PAPA FRANCISCO

MEDITAÇÕES MATUTINAS NA SANTA MISSA CELEBRADA
NA CAPELA DA CASA SANTA MARTA

A mulher é a harmonia do mundo

Quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 07 de 16 de fevereiro de 2017

«Para entender uma mulher antes é necessário sonhá-la»: eis por que a mulher é «o grande dom de Deus», capaz de «trazer harmonia à criação». A ponto que, confidenciou o Papa Francisco com um toque de ternura poética, «gosto de pensar que Deus criou a mulher para que todos nós tivéssemos uma mãe». Foi um verdadeiro hino às mulheres o que o Pontífice propôs na missa. É a mulher, reconheceu Francisco, «que nos ensina a acariciar, a amar com ternura e que faz do mundo uma coisa bela». E se «explorar as pessoas é um crime de lesa humanidade, explorar uma mulher é mais do que um delito e de um crime: significa destruir a harmonia que Deus quis dar ao mundo, é voltar para trás».

Para a sua meditação, Francisco inspirou-se nas leituras hodiernas, tiradas do livro de Génesis (2, 18-25) e do Evangelho de Marcos (7, 24-30). A liturgia «continua a narração da criação do mundo» disse imediatamente o Papa, realçando inclusive que «com a criação do homem parece que tudo terminou», a ponto que «Deus repousa». Contudo, «falta algo: o homem estava sozinho» e daquela «solidão o próprio Deus se deu conta: “Não é conveniente que o homem esteja só; vou dar-lhe uma auxiliar semelhante a ele» lê-se no livro de Génesis.

Então, «o Senhor artesanalmente — mas esta é uma forma literária para o explicar — «formou da terra todos os animais dos campos e todas as aves dos céus, conduziu-os até junto do homem, a fim de verificar como ele os chamaria”» afirmou o Papa relendo o trecho evangélico. E «Deus disse» ao homem: «esta será a tua companhia, dá-lhe um nome». Para Deus, prosseguiu Francisco, «esta é uma ordem do demónio». Na prática diz ao homem: «Tu serás o dono destes, aquele que põe o nome, aquele que manda». Mas «para o homem não encontrou uma auxiliar adequada» lê-se no livro de Génesis. Assim «o homem estava sozinho, com todos estes animais: “Mas, ouve lá, porque não arranjas um cão, fiel, que te acompanhe na vida, e também dois gatos para os acariciar: o cão fiel é bom, os gatos são engraçados, para alguns, para outros não, para os ratos não!”». Todavia, o homem «não encontrava nestes animais uma companhia» e, em síntese, «estava sozinho».

Francisco prosseguiu repropondo ponto por ponto o trecho do Génesis: «Então o Senhor — continua a narração — “adormeceu profundamente o homem”: fez com que dormisse. Um homem sozinho, a solidão, agora o homem está adormecido, o sonho do homem: adormeceu». E «artesanalmente — está escrito à letra — enquanto ele dormia, tirou-lhe uma das costelas e fez uma mulher, e levou-a para junto do homem». O homem, quando a viu, disse: «“Eis agora aqui, o osso de meus ossos e a carne de minha carne; ela se chamará mulher — atribuiu-lhe um nome — porque foi tirada do homem”». Em síntese, afirmou Francisco, para o homem «é algo diferente de tudo o que ele tinha, era o que lhe faltava para não estar sozinho: a mulher, descobriu-a, viu-a». Mas «antes de a ver, sonhou com ela». Com efeito, disse o Papa, «para entender uma mulher antes é necessário sonhá-la; não é possível compreendê-la como todos os outros seres vivos: é algo diferente, é algo diverso». Precisamente «assim Deus a fez: para ser sonhada, antes».

Muitas vezes quando falamos das mulheres, falamos de maneira funcional: a mulher serve para fazer isto, para fazer, não! Primeiro, é para outra coisa: a mulher traz algo sem o qual o mundo não seria assim». A mulher «é algo diferente, é algo que traz uma riqueza que o homem, toda a criação e todos os animais não têm». Também «Adão, antes de a ver, sonhou com ela: há algo de poesia, nesta narração». E «depois o terceiro trecho, quando Adão diz “Eis agora aqui o osso de meus ossos e a carne de minha carne”: o destino de ambos». Com efeito, lê-se no Génesis: «Por isso o homem deixa o seu pai e a sua mãe para se unir à sua mulher; e já não são mais que uma só carne». Sim, «uma só carne».

«Adão não podia ser uma só carne com as aves, com o cão, com o gato, com todos os animais, com toda a criação: não, não! Só com a mulher, e isto é o destino, isto é o futuro, isto era o que faltava». E «a mulher vem assim coroar a criação, mais ainda: traz harmonia à criação». Por conseguinte, «quando não há a mulher, falta a harmonia». Também «nós dizemos, falando: esta é uma sociedade com uma forte atitude masculina. Falta a mulher». E talvez afirmemos inclusive que «a mulher serve para lavar os pratos, para fazer...». Ao contrário, «não: a mulher serve para trazer harmonia; sem a mulher não há harmonia». O homem e a mulher «não são iguais, um não é superior ao outro, não. É simplesmente que o homem não traz harmonia: é ela que traz aquela harmonia que nos ensina a acariciar, a amar com ternura e que faz do mundo uma coisa bonita».

Portanto, «três trechos». Em primeiro lugar, «o homem sozinho, a solidão do homem sem a mulher; segundo, o sonho: nunca se pode entender uma mulher sem a sonhar antes; terceiro, o destino: uma só carne». «Aconteceu-me há alguns meses — disse Francisco — numa das audiências, ao saudar as pessoas que se encontravam atrás das barreiras, ter encontrado um casal que celebrava o sexagésimo aniversário de matrimónio: não eram muito idosos porque se tinham casado ainda jovens, deveriam ter cerca de oitenta anos, mas estavam bem, sorridentes». Ao vê-los o Papa perguntou-lhes qual dos dois teve «mais paciência» ao longo dos sessenta anos de casamento. E «eles que olhavam para mim, trocaram os olhares — nunca esquecerei aqueles olhos — depois voltaram a olhar para mim e disseram-me, os dois juntos: “Estamos apaixonados”». Eis, acrescentou Francisco, «depois de sessenta anos, isto significa uma só carne e é isto que traz a mulher: a capacidade de se apaixonar. A harmonia ao mundo».

«Muitas vezes — reconheceu o Papa — ouvimos dizer: “É necessário que nesta sociedade, nesta instituição, haja uma mulher para que faça isto, faça estas coisas”». Mas «a funcionalidade não é a finalidade da mulher: é verdade que a mulher deve fazer coisas e faz — como todos nós fazemos — coisas». Porém, «a finalidade da mulher é criar harmonia e sem a mulher não há harmonia no mundo». Sim, insistiu o Pontífice, «explorar as pessoas é um crime de lesa humanidade, é verdade, mas explorar uma mulher é mais do que isso: significa destruir a harmonia que Deus quis proporcionar ao mundo». Significa realmente «destruir, não é apenas um delito, um crime: é uma destruição, significa voltar para trás, destruir a harmonia”».

«É este o grande dom de Deus: deu-nos a mulher» afirmou o Pontífice. E no trecho do Evangelho de Marcos, proposto hoje na liturgia, «ouvimos do que é capaz uma mulher» realçou Francisco, referindo-se à mulher cuja filha estava possuída por um espírito impuro. Uma mulher «corajosa» que «foi em frente sem recear, mas é mais do que isso, é mais: a mulher é harmonia, é poesia, é beleza». A ponto que «sem ela o mundo não seria tão bonito, não seria harmónico».