A luta no coração (19 de janeiro de 2017)

PAPA FRANCISCO

MEDITAÇÕES MATUTINAS NA SANTA MISSA CELEBRADA
NA CAPELA DA CASA SANTA MARTA

A luta no coração

Quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 04 de 26 de janeiro de 2017

O coração de cada cristão é teatro de uma «luta». Todas as vezes que o Pai «nos atrai» a Jesus, há «outro alguém que faz guerra contra nós», sublinhou o Papa Francisco na homilia, durante a qual, comentando o Evangelho do dia (Mc 3, 7-12) analisou as razões que impelem o homem a seguir Jesus e examinou como esta sequela nunca está isenta de dificuldades, aliás, se não combatêssemos todos os dias contra uma série de «tentações», correríamos o risco de uma religiosidade formal e ideológica.

No trecho evangélico, observou o Pontífice, «pronuncia-se por três vezes a palavra “multidão”: seguia-o uma grande multidão, vinda de todas as partes; uma grande multidão; e a multidão lançava-se sobre ele, para o tocar». Uma multidão «com um entusiasmo fervoroso, que seguia Jesus calorosamente e vinha de todas as partes: de Tiro e Sidónia, da Idumeia e da Transjordânia». Muitos «percorriam este caminho a pé para encontrar o Senhor». E perante esta insistência surge uma pergunta: «Por que vinha esta multidão? Porquê este entusiasmo? Do que precisava». As motivações sugeridas por Francisco podem ser multíplices. «O próprio Evangelho diz-nos que havia doentes que queriam ser curados», mas havia também numerosos que iam «para o ouvir». Aliás, «estas pessoas gostavam de ouvir Jesus, porque não falava como os seus doutores, mas com autoridade. Isto mexia com o coração». Certamente, sublinhou o Papa, «era uma multidão que vinha espontaneamente: não a levavam de autocarro, como vemos muitas vezes quando se organizam manifestações e tantos devem ir para “verificar” a presença, para não perder depois o posto de trabalho».

Portanto, esta gente «ia porque sentia algo». E eram tão numerosos «que Jesus teve que pedir uma barca e afastar-se um pouco da margem do rio, para que não o esmagasse». Mas qual era o verdadeiro motivo, o profundo? Segundo o Pontífice «o próprio Jesus no Evangelho explica» esta espécie de «fenómeno social» e diz: «Ninguém pode vir ter comigo se não o atrair o Pai». Com efeito, esclareceu Francisco, se é verdade que esta multidão ia ter com Jesus porque «necessitava» ou porque «alguns eram curiosos» o motivo real encontra-se no facto de que «esta multidão era atraída pelo Pai. Era o Pai que atraía as pessoas a Jesus». E Cristo «não ficava indiferente, como um mestre estático que proferia as suas palavras e depois lavava as mãos. Não! Esta multidão mexia com o coração de Jesus». Precisamente no Evangelho lê-se que «Jesus estava comovido, porque via estas pessoas como rebanho sem pastor».

Portanto, explicou o Pontífice, «o Pai, através do Espírito Santo, atrai as pessoas a Jesus». É inútil ir procurar «todas as argumentações». Qualquer motivo pode ser «necessário», mas «não é suficiente para fazer levantar um dedo. Não podes mover-te» dar «um passo só com as argumentações apologéticas». Ao contrário, o que é deveras necessário e decisivo é «que seja o Pai quem te atrai a Jesus».

A inspiração decisiva para a reflexão do Pontífice chegou quando examinou as últimas linhas do breve excerto evangélico proposto pela liturgia: «É curioso» — observou — que neste trecho ao falar «de Jesus, da multidão, do entusiasmo, também do amor com o qual Jesus os recebia e os curava» encontra-se um final um pouco insólito. Com efeito, está escrito: «Os espíritos impuros quando o viam prostravam-se aos seus pés e gritavam “Tu és o Filho de Deus!”».

Mas precisamente esta — disse o Papa — «é a verdade; esta é a realidade que cada um de nós sente quando Jesus se aproxima», ou seja, «que os espíritos impuros procuram impedi-lo, fazem guerra contra nós».

Alguém poderia objetar: «Mas, padre, eu sou muito católico; eu vou sempre à missa... Mas nunca, nunca tenho estas tentações. Graças a Deus!». Mas não. A resposta é: «Não! Reza, porque estás no caminho errado!» pois «uma vida cristã sem tentações não é cristã: é ideológica, é gnóstica, mas não é cristã». Com efeito, acontece que «quando o Pai atrai as pessoas a Jesus, há outro alguém que atrai de forma contrária e faz guerra dentro de ti!». Não é por acaso que São Paulo «fala da vida cristã como de uma luta: uma luta de todos os dias. Para vencer, para destruir o império de satanás, o império do mal». E é precisamente por esta razão, acrescentou o Papa, que «Jesus veio, para destruir satanás! Para destruir a sua influência sobre os nossos corações».

Com esta observação final no trecho evangélico sublinha-se o essencial: «parece que, nesta cena», desaparecem «quer Jesus, quer a multidão e apenas permanecem o Pai e os espíritos impuros, ou seja, o espírito do mal. O Pai que atrai as pessoas a Jesus e o espírito do mal que procura destruir sempre!».

Assim compreendemos — concluiu o Pontífice — que «a vida cristã é uma luta» na qual «ou te deixas atrair por Jesus, por meio do Pai, ou podes dizer “Fico tranquilo, em paz!... Mas nas mãos desta gente, destes espíritos impuros”». Contudo, «se quiseres avançar deves lutar! Sentir o coração que luta, para que Jesus vença».

Por conseguinte, é a conclusão, cada cristão deve fazer este exame de consciência e perguntar-se: «Sinto esta luta no meu coração?». Este conflito «entre o conforto ou o serviço aos outros, entre o divertir-me um pouco ou rezar e adorar o Pai, entre uma coisa e outra?». Sinto «o desejo de fazer o bem» ou há «algo que me detém, que me torna rígido?». E ainda: «Penso que a minha vida comove o coração de Jesus? Se não acredito nisto — admoestou o Papa — devo rezar muito para poder crer, para que me seja concedida esta graça».