A inutilidade sagrada do silêncio
O médico que acompanha um doente que chegou aos seus últimos dias de vida confronta-se frequentemente com uma dimensão quase perdida na nossa sociedade: o silêncio. Com a porta do quarto fechada, a sós diante do mistério da vida que se transforma, atravessando o mistério do sofrimento, não podemos deixar de nos sentirmos como que inseridos numa atmosfera diversa, de sentirmos quase o seu palpitar. E no entanto, escreve o médico e filósofo Max Picard, «hoje vale somente o que está contido no murmúrio, só aquilo que nele acontece», a tal ponto que, para usar as palavras de Kierkegaard, «os indivíduos amantes da solidão e do silêncio são postos ao nível dos delinquentes», ou pelo menos considerados com muita suspeita.
Vivemos num mundo em que – escreve Silvano Zucal, citando Picard – «já parece dominar unicamente o puro murmúrio verbal (Wortgeräusch), ou seja, uma palavra já morta», como um ruído de fundo contínuo, no qual se vai perdendo progressivamente a capacidade de estar em silêncio, de respeitar o silêncio do outro e, em última análise, de ouvir. A escuta, do ouvido e do coração, é segundo Zucal «uma virtude desconhecida (…), absolutamente transgressiva porque incide sobre uma sociedade habitada sobretudo por pessoas que não ouvem, a todos os níveis (…) narcisistas e replicantes que falam sempre e nunca ouvem».
Se se perde a dimensão do silêncio, perde-se a capacidade de dar importância às palavras, de conseguir ouvir o homem, especialmente quando ele está doente e já não tem a força de impor a ninguém o próprio discurso e as próprias razões. E assim se, como dizia Pier Paolo Pasolini, «a morte não consiste em não poder comunicar, mas em não poder ser compreendido», o doente morre verdadeiramente, relegado num canto onde, incompreendido, será considerado apenas um fardo inútil.
É interessante observar, a este propósito, a raiz comum entre perda do silêncio e perda do homem tout court: a categoria que Picard refere positivamente ao silêncio, «sem utilidade», ou seja, «totalmente alheio ao mundo do útil», é a mesma que acaba, negativamente, por ser aplicada ao doente moribundo, em coma, em estado vegetativo ou ao filho no ventre, indesejado talvez porque seja malformado. A solução eutanásica ou abortista é muitas vezes filha da perda da capacidade de ouvir o próximo e, antes ainda, de se ouvir a si mesmo, do atordoamento mediático que insinua conhecimentos superficiais, vendidos como verdade e «impostos aos homens como uma matéria qualquer, em latas vazias» (Picard).
E no entanto, misteriosamente, no silêncio ou diante do homem ferido, quem ouve tem a impressão de escutar uma voz nova: «Precisamente do silêncio provêm mais ajuda e mais prosperidade do que de tudo o que é útil. Isto, o inútil, põe-se ao lado do que é até demasiado útil, aparece repentinamente ao seu lado e assusta pela sua absoluta falta de finalidade, interrompe o fluxo e a corrida daquilo que é útil até demais». Quase como um gesto litúrgico ou como um homem paralisado pela doença, «o silêncio – continua Picard – revigora o que existe de intangível ou de inviolável nas coisas, atenua o dano que a exploração causa às coisas, restituindo-as à sua integridade (…) porque o silêncio é precisamente isto: inutilidade sagrada». Ou, como escrevia padre Giuseppe Dossetti, «puro dom de Deus».






