À Comunidade do Colégio Espanhol de São José em Roma (1º de abril de 2017)

DISCURSO DO PAPA FRANCISCO
 À COMUNIDADE DO COLÉGIO ESPANHOL DE SÃO JOSÉ
 EM ROMA

Sala Clementina
Sábado, 1° de abril de 2017

[Multimídia]

 

Caros irmãos e irmãs!

Desejo transmitir a minha saudação a toda a comunidade do Pontifício Colégio Espanhol de São José, e agradecer ao Senhor Cardeal Ricardo Blásquez Pérez as amáveis palavras que, como Patrono do Colégio, me dirigiu em nome de todos nesta comemoração. Dou graças a Deus pela bonita obra instituída pelo Beato Manuel Domingo y Sol, fundador da Fraternidade dos Sacerdotes Operários Diocesanos do Sagrado Coração de Jesus, e pelo trabalho levado a cabo ao longo de todos estes anos.

Esta Instituição nasceu com a vocação de ser um ponto de referência para a formação do clero. Formar-se pressupõe a capacidade de se aproximar do Senhor com humildade e de lhe perguntar: qual é a tua vontade, o que queres de mim? Conhecemos a resposta, mas talvez nos faça bem recordá-la, e portanto proponho-vos as três palavras do Shemá com que Jesus respondeu ao levita: «Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma... com todas as tuas forças» (Mc 12, 30).

Amar com todo o coração significa fazê-lo sem reservas e sem ambiguidades, sem falsos interesses e sem se procurar a si mesmo no sucesso pessoal ou na carreira. A caridade pastoral pressupõe que se vá ao encontro do próximo, compreendendo-o, aceitando-o e perdoando-o de todo o coração. Nisto consiste a caridade pastoral.

Mas não é possível crescer sozinho nesta caridade. Foi por isso que o Senhor nos chamou a ser uma comunidade, de tal modo que a caridade una todos os presbíteros com um vínculo especial, no ministério e na irmandade. Por isso é necessária a ajuda do Espírito Santo, mas também a luta espiritual pessoal (cf. Ratio fundamentalis institutionis sacerdotalis, n. 87). Isto não passou de moda mas continua a ser atual, como nos primórdios da Igreja. Trata-se de um desafio permanente para superar o individualismo e viver a diversidade como uma dádiva, procurando a unidade do presbitério, que é sinal da presença de Deus na vida da comunidade. O presbitério que não mantiver a unidade, na realidade expulsa Deus do próprio testemunho. Não dá testemunho da presença de Deus. Rejeita-o. Deste modo, congregados em nome do Senhor, de maneira particular quando celebrais a Eucaristia, manifestais inclusive sacramentalmente que Ele é o amor do vosso coração.

Segundo: amar com toda a alma quer dizer estar disposto a oferecer a própria vida. Esta atitude deve persistir ao longo do tempo, comprometendo todo o nosso ser. Assim o propunha o fundador do Colégio: «[Senhor] ofereço-te e ponho à tua disposição o meu corpo, a mina alma, a minha memória, a minha inteligência, a minha vontade, a minha saúde e até a minha própria vida» (Escritos III, vol. 6, doc. 111, pág. 1). Portanto, a formação do sacerdote não pode ser apenas universitária, embora ela seja deveras importante e necessária, mas há de ser também um processo integral, que inclui todos os aspetos da vida. A formação deve ajudar-vos a crescer e, ao mesmo tempo, a aproximar-vos de Deus e dos irmãos. Por favor, não vos contenteis com a obtenção de um título, mas sede discípulos a tempo inteiro para «anunciar a mensagem evangélica de modo credível e compreensível para o homem de hoje» (Ratio, n. 116). Nesta altura, é importante crescer no hábito do discernimento, que vos permite valorizar a cada instante e em todas as moções até aquilo que parece oposto e contraditório, considerando o que provém do Espírito; uma graça que devemos pedir de joelhos. Só a partir desta base, através das múltiplas tarefas no exercício do ministério, podereis formar os outros naquele discernimento que leva à Ressurreição e à Vida, permitindo-vos dar uma resposta consciente e generosa a Deus e aos irmãos (cf. Encontro com sacerdotes e consagrados, Milão, 25 de março de 2017).

Eu disse que a formação do sacerdote não pode ser apenas universitária, limitando-se só a ela. Disto nascem todas as ideologias que contaminam a Igreja, de qualquer tipo, do academismo clerical. São quatro as colunas que a formação deve ter: formação universitária, formação espiritual, formação comunitária e formação apostólica. E devem interagir umas com as outras. Se faltar uma delas, a formação começará a claudicar e o sacerdote acabará por ficar paralítico. Portanto, por favor, as quatro juntas, em interação.

Afinal, a terceira resposta de Jesus, amar com todas as forças, recorda-nos que onde está o nosso tesouro, lá também se encontra o nosso coração (cf. Mt 6, 21), e que nas nossas pequenas coisas, seguranças e afetos entra em jogo a nossa capacidade de dizer sim ao Senhor, ou de lhe virar as costas, como fez o jovem rico. Não vos podeis contentar com a conduta de uma vida ordenada e confortável, que vos permita viver sem preocupações, sem sentir a necessidade de cultivar um espírito de pobreza radicado no Coração de Cristo que, não obstante fosse rico, se fez pobre por nossa causa (cf. 2 Cor 8, 9) ou então, como reza o texto, para nos enriquecer. Exige-se que conquistemos a autêntica liberdade de filhos de Deus, numa relação adequada com o mundo e com os bens terrenos, segundo o exemplo dos Apóstolos, que Jesus convida a confiar na Providência e a segui-lo sem pesos nem laços (cf. Lc 9, 57-62; Mc 10, 17-22). Não vos esqueçais disto: o diabo entra sempre pelos bolsos, sempre! Além disso, é bom aprender a dar graças por aquilo que temos, renunciando generosa e voluntariamente ao supérfluo, para estar mais perto dos pobres e dos fracos. O Beato Domingo y Sol dizia que para socorrer quantos vivem em necessidade é necessário estar disposto a «vender a camisa». Não vos pedirei tanto, sacerdotes sem camisa, não; mas só vos peço que sejais testemunhas de Jesus, através da simplicidade e da austeridade de vida, para vos tornardes promotores credíveis de uma verdadeira justiça social (cf. João Paulo II, Pastores dabo vobis, n. 30). E, por favor, — digo-vos como irmão, como pai e como amigo — por favor, abstende-vos do carreirismo eclesiástico: é uma peste. Evitai-o!

Caros superiores, estudantes e ex-alunos deste Colégio Espanhol de São José: confiemos ao santo Patriarca, Protetor da Igreja, todas as vossas preocupações e os vossos projetos, para que ele vos acompanhe, juntamente com Maria Santíssima, invocada pela tradição do Colégio como Mãe Clementíssima, a fim de poderdes assim crescer em sabedoria e graça, para ser discípulos amados do Bom Pastor. Que Deus vos abençoe!