A astúcia de São Paulo (1º de junho de 2017)

PAPA FRANCISCO

MEDITAÇÕES MATUTINAS NA SANTA MISSA CELEBRADA
NA CAPELA DA CASA SANTA MARTA

A astúcia de São Paulo

Quinta-feira, 1 de junho de 2017

Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 23 de 8 de junho de 2017

Na escola de Paulo de Tarso. A vida do apóstolo das nações, «sempre em ação, agitada, sempre em movimento», foi caraterizada por três «dimensões», três «atitudes» das quais cada cristão tem muito a aprender, frisou o Papa, comentando o trecho dos Atos dos Apóstolos (22, 30; 23, 6-11) proposto pela liturgia do dia.

São Paulo, recordou o Pontífice, era «um homem sempre em ação, em movimento»: é difícil pensar que ele «apanhasse o sol numa praia, descansando». Desta vida «sempre a caminho», inspirando-se no «trecho do livro dos Atos dos Apóstolos», o Papa quis frisar «três dimensões» fundamentais.

O primeiro aspeto que salta aos olhos «é a pregação, o anúncio». Nas Escrituras lê-se de Paulo que «vai de um lado para outro a anunciar Cristo, viaja e ouve que o chamam lá, e parte... e quando não prega num lugar, trabalha». Portanto, o seu principal compromisso é a pregação: a sua, explicou Francisco, é uma verdadeira «paixão». Chamado «a pregar e anunciar Jesus Cristo», Paulo não fica «sentado diante da sua escrivaninha: não. Está sempre em ação. Sempre difunde o anúncio de Jesus Cristo».

São Paulo, acrescentou o Pontífice, «tinha dentro de si um fogo, um zelo apostólico que o fazia progredir». E «não recuava», com uma paixão que o levou a enfrentar até muitas «dificuldades». Exatamente aqui sobressai a «segunda dimensão» da sua vida, a das «dificuldades» ou, «mais claramente, as perseguições».

Precisamente na liturgia do dia lê-se que o grupo dos mesmos «inimigos» que se opuseram a Jesus — «fariseus, doutores da lei, anciãos do templo, anciãos, saduceus» — foram «em massa para o acusar». Em suma, disse o Papa, «queriam matá-lo». Uma hostilidade, recordou Francisco, que se manifestou «não uma só vez, mas muitas vezes». Numa circunstância, «depois de o ter lapidado, deixaram-no como morto: pensavam que estava morto». Mas por que, interrogou-se o Pontífice, queriam eliminá-lo? «Porque Paulo levava o verdadeiro anúncio de Jesus, aquilo que o Senhor queria para o seu povo». E por isso, para eles, ele era «um perturbador».

Portanto, eis que Paulo é levado «a julgamento». O trecho dos Atos dos Apóstolos descreve detalhadamente a cena: «o comandante mandou que lhe tirassem as correntes» — porque «para fazer uma declaração, uma defesa no tribunal, os romanos ensinaram-nos que o réu deve estar livre, sem cadeias» — e «ordenou que se reunissem os sumos sacerdotes e todo o sinédrio: todos». Portanto, apresentaram-se como se fossem «um contra Paulo». Naquele ponto, observou o Papa, «o Espírito inspirou em Paulo um pouco de astúcia». Com efeito, o apóstolo sabia que na realidade eles «não eram “um”» e «que entre eles havia muitas lutas internas, e sabia que os saduceus não acreditavam na ressurreição, que os fariseus acreditavam...». Por isso, «disse em voz alta: “Irmãos, sou fariseu, filho de fariseus. É por causa da minha esperança na ressurreição dos mortos que sou julgado”». As suas palavras surtiram o efeito esperado: de facto, «assim que disse isto, houve uma discussão entre os fariseus, os saduceus e a assembleia, pois os saduceus não acreditavam... E eles, que pareciam “um”, dividiram-se, todos».

A este propósito, o Pontífice refletiu sobre o facto de que «eles eram os guardiões da lei, as sentinelas da doutrina do povo de Deus, os guardiões da fé. Mas um acreditava numa coisa, outro noutra...». Com efeito, explicou, «essas pessoas tinham perdido a lei, a doutrina e a fé, porque a transformaram em ideologia, e quando a lei se tornou ideologia, enfraqueceu-se». A mesma coisa, acrescentou, acontece em relação à fé e à doutrina. Eles tiveram a mesma atitude com os profetas, como confirma a repreensão de Jesus: «Fizestes isto aos profetas», isto é, «ideologizaram-se».

E Paulo «teve que lutar muito com aquelas pessoas». E fê-lo também com os «judaizantes». Um esforço do qual sobressai «a segunda dimensão da vida de Paulo. A primeira é o anúncio, o zelo apostólico: levar em frente Jesus Cristo. A segunda é: sofrer as perseguições, as lutas».

Por fim, da leitura do trecho das Escrituras sobressai, «uma terceira dimensão do apostolado de Paulo». Com efeito, lê-se: «Na noite seguinte o Senhor apareceu-lhe e disse: “Coragem! Deste testemunho de mim em Jerusalém, mas agora deves dá-lo em Roma”». Encontramos aqui, disse o Papa, a dimensão da «oração. Paulo tinha esta intimidade com o Senhor: “o Senhor apareceu-lhe”. Apareceu-lhe muitas vezes». Certa vez o próprio Paulo chegou a afirmar que fora «levado quase ao sétimo céu, na oração, e não sabia como descrever a beleza daquilo que tinha sentido ali».

Então, eis que «este lutador, este incansável anunciador de horizontes» possuía a «dimensão mística do encontro com Jesus». E a sua «força» era exatamente «este encontro com o Senhor na oração, como aconteceu no primeiro encontro a caminho de Damasco, quando ia perseguir os cristãos». Paulo, explicou o Pontífice, «é o homem que encontrou o Senhor e não se esquece disto; deixa-se encontrar pelo Senhor e procura o Senhor para o encontrar»: um «homem de oração».

Portanto, as três atitudes de Paulo apresentadas neste trecho, resumiu o Papa, são «o zelo apostólico para anunciar Jesus Cristo, a resistência — resistir às perseguições — e a oração: encontrar-se com o Senhor e deixar-se encontrar por Ele». E, retomando «uma expressão de um Padre da Igreja dos primeiros séculos», acrescentou: «Podemos dizer que Paulo avançava entre as perseguições do mundo e as consolações do Senhor».

Concluindo a meditação, o Pontífice convidou todos a pedir «a graça de aprender estas três atitudes na nossa vida cristã: anunciar Jesus Cristo, resistir às seduções das perseguições e às seduções que te levam a separar-te de Jesus Cristo, e a graça do encontro com Jesus Cristo na oração».